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Brasil como exportador de soluções para sustentabilidade e inovação no agronegócio

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(Curadoria Agro Insight)

Hoje, na curadria Agro Insight, compartilhamos um texto de Mariana Vasconcelos (Administradora, diretora- executiva da Agrosmart) e Ana Mendes (Engenheira-agrônoma, cientista agrária, analista de conteúdo em marketing no agronegócio). O artigo intitulado “Brasil até 2050: Exportador de soluções para sustentabilidade e inovação no agronegócio” é na verdade um capítulo do livro “O Futuro da Agricultura Brasileira – 10 Visões” . Livro busca compilar em dez capítulos a opinião de grandes analistas e formadores de opinião do setor.

Introdução

O protagonismo mundial do agronegócio brasileiro não deixa dúvidas do que o País é capaz quando o assunto é produção de alimentos (Contini; Aragão, 2021). É esse protagonismo que o Brasil precisa fortalecer também nas áreas de sustentabilidade e tecnologia. Afinal, o País está em uma posição única: tem um mercado aberto a novos modelos de negócios; possui uma cultura empreendedora, com um ecossistema de pesquisa e inovação em movimento; enfrenta grandes desafios sistêmicos; e lida com novas possíveis fontes de recursos. O Brasil tem grande potencial de, por meio da tecnologia, aumentar a produção de alimentos enquanto escala também a transparência e a sustentabilidade.

A liderança brasileira é ainda mais urgente em função da mudança do clima. Isso porque a mudança do clima impacta direta e indiretamente a agricultura, assim como a agricultura influencia o clima, uma vez que as atividades agrícolas afetam as emissões de gases de efeito estufa (GEEs) e a gestão dos recursos naturais (Intergovernmental Panel on Climate Change, 2022).

Para lidar com isso, é possível adotar práticas mais sustentáveis, que tragam uma visão sistêmica sobre a produção agrícola. Por exemplo, por meio de abordagens como a agricultura de baixo carbono, a agricultura climaticamente inteligente (climate-smart agriculture) e a agricultura regenerativa (FAO, 2021), é possível promover o ganho de produtividade nas lavouras e, ao mesmo tempo, colaborar para a mitigação, adaptação e resiliência dos sistemas de produção frente à mudança do clima.

A tecnologia entra para viabilizar essa mudança, e o Brasil pode não apenas implementá-la, como também se tornar um exportador de soluções e um referencial em sustentabilidade, produtividade e inovação até 2050. Para isso, contudo, é preciso lidar com três grandes entraves: infraestrutura – principalmente a falta de conectividade à internet no meio rural –, educação e financiamento.

Em todo caso, o cenário é propício para o Brasil, e a mudança geracional pela qual a sociedade e o agronegócio passarão até 2050 também deverão promover avanços significativos.

Entendendo o passado e o presente para arquitetar o futuro

Nas últimas décadas, o mundo se tornou ainda mais complexo. Isso porque os avanços tecnológicos e econômicos deixaram a produção, o transporte e a comunicação cada vez mais eficientes, elevando a interação entre pessoas, organizações, sistemas e objetos. Ou seja, na medida em que essa rede de interações aumentou e se espalhou em nível mundial, mais interdependentes ficaram os sistemas econômicos, sociais, tecnológicos e ecológicos, e isso resultou em um “sistema de sistemas” (Heyli- ghen et al., 2007).

Isso trouxe oportunidades, mas também vem evidenciando desafios que exigem soluções holísticas, ou seja, que integrem os diferentes aspectos do agro e suas interconexões. A produção de alimentos, que já faz parte de um contexto complexo – considerando o agronegócio, há quatro grandes segmentos (indústria de insumos, produção agropecuária, agroindústria e comercialização/distribuição), mais os ambientes institucional e organizacional que são afetados por outros mercados e tendências de consumo –, também é influenciada por esse contexto volátil, incerto, ambíguo e com desafios sistêmicos (Mack; Anshuman, 2016) e múltiplas partes interessadas (stakeholders).

Outra camada se soma a esse desafio: o crescimento da população mundial e, por consequência, da demanda por alimentos, visto que, até 2050, a população deve che- gar a 9,7 bilhões de pessoas (Nações Unidas, 2022), fazendo com que seja necessário produzir quase 50% mais alimentos, fibras e energia – em comparação a 2012 (FAO, 2022) –, porém, sem expandir a área agrícola na mesma proporção. Como fazer isso? Intensificando os sistemas agrícolas de maneira sustentável por meio de tecnologia. Para o Brasil, isso é ainda mais relevante, porque as regiões tropicais compõem a última fronteira agrícola global (Cherubin et al., 2022) e serão o foco dessa intensificação.

Olhando de forma ainda mais focada para a demanda, outros três fatores que darão forma ao futuro do agronegócio são: percepções sobre questões ambientais, sociais e de governança (environmental, social and governance – ESG)1, preocupações com a saúde e busca por novas opções de consumo.

O primeiro deles, ESG – que inclui questões como o compromisso das empresas em reduzir suas emissões de carbono, o apoio aos direitos humanos, à diversidade e a inclusão, bem como a transparência e a conformidade com regulamentações –, já influencia a percepção e até mesmo o comportamento de compra dos consumidores, principalmente entre os mais jovens que fazem parte das gerações millenial e Z (nascidos entre 1981 e 2010) (PwC, 2022).

O segundo fator é entender a alimentação sob o ponto de vista da saúde. Segundo a S2G Ventures (2022), a transição no sistema alimentar está em uma posição única para resolver dois dos maiores passivos contingentes desta era: a estabilidade climática e a saúde. Nos EUA, por exemplo, dados apontam o crescimento nas despe- sas com assistência médica, sendo que parte delas foi gasta com doenças crônicas que poderiam ter sido prevenidas do ponto de vista nutricional. Por isso, a expectativa é de que, cada vez mais, a alimentação assuma um papel central quando o assunto é saúde e prevenção de doenças (S2G Ventures, 2021).

É essa perspectiva que deve aumentar a busca dos consumidores por outras opções e, assim, acelerar novos mercados, como os de nutrição de precisão, proteínas alternativas, proteínas à base de plantas (plant-based), carne cultivada em laboratório (cultured meat), produtos orgânicos e com determinadas certificações de origem e produção, impressão 3D, entre outros mercados. Tudo isso influenciará na produção de alimentos, trazendo desafios e oportunidades ao agronegócio.

Vale ressaltar que essa complexidade global, junto a elementos como crescimento da população, aumento na demanda por alimentos, mudanças nos hábitos de consumo e ascensão de novos mercados, se concretizará no contexto da mudança do clima e seus desdobramentos. Eles incluem tanto consequências diretas provo- cadas pela mudança do clima quanto ações a serem adotadas nos próximos anos visando à mitigação, adaptação e resiliência climática.

Entre os cenários projetados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima – IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima, 2019), dois merecem destaque: para limitar o aquecimento global a 2 °C, as emissões antrópicas líquidas de CO2 precisam diminuir em 20% até 2030 (em comparação ao ín- dice de 2010); já para um aquecimento abaixo de 1,5 °C, as emissões precisam diminuir em 45% até 2030.

Ambos os casos afetam a produção de alimentos (Intergovernmental Panel on Climate Change, 2022), uma vez que os produtores têm suas lavouras mais expostas a eventos extremos e às mudanças nas dinâmicas de pragas, doenças, plantas daninhas, chuvas e outros fatores derivados. Além disso, as cadeias de suprimento têm que lidar com interrupções e atrasos. Isso tudo gera riscos e incertezas e impulsiona a busca por ferramentas que ajudem a trazer mais previsibilidade e controle aos produtores rurais, como também aos demais envolvidos nas cadeias agrícolas – indústrias de insumos, agroindústrias, indústria de alimentos, distribuidores e varejistas. Assim, é a partir desses cenários que as iniciativas pública e privada deverão discutir propostas de regulamentações, sanções e compensações, resultando em desafios e oportunidades para o agronegócio brasileiro.

Agricultura e sustentabilidade: novos desafios exigem novas perspectivas

Felizmente, já existem abordagens capazes de conciliar a necessidade de intensificação da produção agrícola com o contexto da mudança do clima. Três delas merecem destaque e serão comentadas a seguir.

A primeira é a agricultura climaticamente inteligente, ou climate-smart agriculture, que, em resumo, possui três grandes pilares (FAO, 2021):

  • Produtividade: aumentar de forma sustentável a produtividade e a renda dos produtores
  • Adaptação e resiliência climática: tornar a produção agrícola menos vulnerável à seca, a ataques de pragas e doenças e outros riscos relacionados ao clima, como também construir a resiliência e a adaptação dos sistemas de produção.
  • Mitigação: reduzir as emissões de GEEs e até mesmo removê-las por meio do sequestro de carbono e estoque no solo, bem como evitar o desmatamento

Na prática, algumas medidas que expressam esses pilares no manejo agrícola incluem: uso de variedades melhoradas e mais bem adaptadas, diversificação de espécies vegetais, uso de irrigação, melhoria na qualidade da saúde do solo (dos pontos de vista físico, químico e biológico), ações que elevem estoque de carbono no solo, reflorestamento de áreas desmatadas, conservação de áreas ricas em carbono em determinados ecossistemas, substituição de combustíveis fósseis por energias renováveis no campo, entre outros.

A agricultura climaticamente inteligente também se aproxima da agricultura regenerativa, uma abordagem que engloba um conjunto de práticas que deverão estar cada vez mais presentes nas lavouras, como o sistema plantio direto (SPD). Apesar de ainda não haver consenso sobre o que é e o que não é agricultura regenerativa, Elevitch et al. (2018) descrevem que essa abordagem prioriza cinco objetivos no manejo agrícola; são eles:

  • Solo: construir e manter a saúde e fertilidade do
  • Água: aumentar a percolação e retenção de água no sistema agrícola.
  • Biodiversidade: preservar e até aumentar a
  • Saúde dos ecossistemas: proporcionar a resiliência dos ecossistemas
  • Carbono: contribuir para o sequestro de carbono por sistemas de produção.

Uma terceira abordagem que vale a pena citar é a de agricultura de baixo carbono, que tam- bém descreve uma série de práticas agrícolas que possuem alto potencial de mitigação da mudança do clima, como é o caso: da recuperação de pasta- gens degradadas, capaz de mitigar de 83 milhões a 104 milhões de megagramas (toneladas) de gás carbônico equivalente (Mg CO2eq); da integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), capaz de mitigar de 18 milhões a 22 milhões Mg CO2eq; do SPD, com 16 milhões a 20 milhões Mg CO2eq; da fixação bio- lógica de nitrogênio (FBN), com cerca de 10 milhões Mg CO2eq; entre outros (Brasil, 2012).

Como é possível notar, nas três abordagens – agricultura climaticamente inteligente, agricultura regenerativa e agricultura de baixo carbono –, a produção agrícola é vista a partir de uma perspectiva sistêmica. Isso é importante porque destaca o potencial da agricultura de, para além da produção de alimentos, ser parte da solução no enfrentamento das mudanças climáticas e no processo de descar- bonização da economia mundial.

É a partir desse contexto que, até 2050, novas tecnologias, soluções e tendências na produção de alimentos deverão ganhar espaço como: intensificação no uso de bioinsumos; avanços na biotecnologia; avanços na agricultura de precisão; intensificação da bioeconomia; farming as a service (FaaS) e migração de outros modelos ‘as a service’ para o campo; pagamento por serviços ambientais (PSA); entre outros.

Tecnologia e financiamento: oportunidades e tendências para o agronegócio

A intensificação agrícola sustentável do agronegócio brasileiro também deve vir acompanhada de PSA, mecanismo que oferece incentivos ou compensações pela conservação dos recursos naturais (Aguilar-Gómez et al., 2020). Por meio do PSA, os produtores rurais serão remunerados por adotar determinadas medidas que favoreçam a recuperação ou até a melhoria dos serviços ecossistêmicos que são benefícios para a sociedade, como, por exemplo: ciclagem de nutrientes e decomposição de resíduos, manutenção ou renovação da fertilidade do solo, manutenção da biodiversidade e do patrimônio genético, sequestro de carbono, manutenção do equilíbrio do ciclo hidroló- gico, entre outros (Brasil, 2021).

Pelo fato de o PSA ser uma transação voluntária, com diferentes modalidades de pagamento que incluem, por exemplo, pagamentos monetários, compensação vinculada a certificado de redução de emissões por desmatamento e degradação e títulos verdes (green bonds) (Brasil, 2021), os produtores terão acesso a diferentes fontes de recursos, ganhando mais opções na hora de realizar negociações sobre o PSA.

Em paralelo, haverá também a ascensão do mercado voluntário de carbono5, blended finance6, títulos verdes e climáticos (Green e Climate Bonds)7 – ou seja, diferentes maneiras para alavancar a oferta de recursos para o financiamento de práticas sustentáveis. Isso porque, até 2030, o Brasil precisará de, ao menos, US$ 209,9 bilhões para atingir suas metas climáticas, sendo a agricultura, a silvicultura e o uso da terra áreas importantes neste processo (Mendes; Souza, 2020).

Vale destacar que o Brasil já é o segundo maior mercado da América Latina para títulos verdes, com US$ 5,9 bilhões, e esse número será ainda maior nas próximas décadas, uma vez que investidores institucionais têm demandado cada vez mais, para suas carteiras, produtos financeiros que considerem não apenas os riscos financeiros (Mendes; Souza, 2020).

Dessa forma, mercados que se conectam ao agronegócio serão aproveitados tanto diretamente (por exemplo, pela venda de créditos de carbono gerados pelas emis- sões de GEEs evitadas em uma fazenda) quanto pela agregação de valor nos produtos agrícolas (como pela exportação de carne neutra em carbono).

Assim, em 2050, o Brasil será mais do que um fornecedor mundial de commodities ao acessar novos mercados por meio da diversificação e da diferenciação da pauta exportadora, inclusive como originador de tecnologia e de soluções para os mercados em ascensão.

Para isso, será crucial o acompanhamento de ponta a ponta nas cadeias de valor com dados, informações e indicadores que permitam avaliar as práticas adotadas e seus efeitos em todos os seus elos. Assim, haverá uma intensificação da demanda de investidores e demais partes interessadas por relatórios padronizados que demonstrem indicadores ambientais, sociais e de governança das empresas, como forma de acompanhamento e gestão de riscos (Lehmen, 2022). Isso também deve afetar a oferta de recursos financeiros desde os pequenos produtores até os grandes grupos agrícolas, agroindústrias, indústrias de alimentos e demais agentes envolvidos no agronegócio. Isto é, quanto maior for a participação do mercado de capitais na oferta de recursos ao agronegócio, maior será também a cobrança por transparência.

Por isso, ferramentas de measurement, reporting and verification (MRV)8 serão fundamentais para garantir maior transparência, além de possibilitar comparação de informações, identificação e adoção de boas práticas e mensuração do impacto gerado, o que facilitará o acesso ao financiamento público e privado, nacional e internacional.

Além disso, vale a pena ressaltar que toda essa complexidade deve se tornar um terreno fértil para duas estratégias: fusões e aquisições (do inglês, mergers and acquisitons – M&A) e verticalização de algumas cadeias. As M&A entre empresas já têm ocorrido, inclusive, diversas agtechs e empresas estabelecidas no agronegócio realizaram aquisições recentes a fim de diversificar seu portfólio de ofertas e se manter na dianteira da indústria (Agfunder, 2022). Essa perspectiva de complexidade, somada à necessidade de monitoramento da conformidade ao longo das cadeias de valor, tam- bém deverá influenciar algumas dessas empresas a se verticalizarem.

Em resumo, o Brasil tem a oportunidade de ganhar protagonismo nesse cenário, já que conta com diversos centros de pesquisa, universidades, ecossistemas de inova- ção e fomento a startups. Só para se ter ideia da abrangência de atuação das agtechs brasileiras, atualmente elas estão presentes em frentes como: agricultura de precisão (analytics, internet das coisas e softwares de gestão); automação e robotização (má- quinas agrícolas, drones e visão computacional); biotecnologia (biomateriais, insumos biológicos, bioenergia e genética agropecuária); marketplaces (oferta de equipamentos e insumos); midstream technologies (alimentos seguros, rastreabilidade, logística e transporte); agricultura urbana, novas culturas agrícolas, fintechs e edtechs (Distrito Agtech Report, 2022).

Visão sistêmica e bem-estar intergeracional: conceitos-chave para um futuro regenerativo

Como construir, por meio de avanços tecnológicos, caminhos para esse agronegócio produtivo, sustentável e resiliente ao clima? O primeiro passo, com toda certeza, é colocar o entendimento de sustentabilidade sob uma nova perspectiva. É isso que Matson et al. (2016) fazem ao apontar que o objetivo final do desenvolvimento susten- tável é o bem-estar intergeracional, isto é, a soma de necessidades materiais, saúde, educação, meio ambiente e segurança.

Para isso, é preciso pensar esse bem-estar como estoques de ativos que as pes- soas podem acessar agora e no futuro, a fim de melhorar suas vidas. Esses estoques incluem os capitais natural, social, humano, produtivo e de conhecimento. Assim, ao implementar políticas públicas, direcionar financiamento privado, incentivar parcerias estratégicas e qualquer outra ação que vise ao desenvolvimento sustentável, é preciso considerar como esses cinco ativos poderão afetar e ser afetados, inclusive no agronegócio.

Um exemplo que demonstra a importância dessa análise é a Revolução Verde. Matson et al. (2016) apontam que a Revolução Verde considerou apenas quatro desses cinco ativos. Assim, como consequência do desconhecimento de seu impacto sobre o capital natural, houve perdas de paisagem natural, degradação do solo e poluição do ar e da água.

Para lidar, portanto, com um sistema de sistemas em um mundo cada vez mais complexo, e a partir da perspectiva desses cinco capitais, é preciso conectar, adaptar e inovar, em um movimento perene. Isto é, conectar as partes interessadas profundamente, como produtores rurais, agentes públicos, agroindústrias, investidores e consumidores finais. Na sequência, é necessário adaptar os modelos para os diferentes contextos, lembrando que a volatilidade é uma constância na produção de alimentos – em parte, devido ao mercado e aos impactos do clima na produção e nas cadeias de suprimentos. Por fim, é essencial trazer ainda mais inovação ao agronegócio, repensando modelos de negócios, adotando novas tecnologias e fomentando a digitalização.

Infraestrutura, educação e financiamento: barreiras para o agro seguir avançando

Todo setor tem desafios e, no caso do agronegócio, três deles são latentes e precisam ser superados para que o Brasil alcance e se mantenha na posição de protagonismo discutida até aqui. São eles: infraestrutura, educação e financiamento.

No que diz respeito à infraestrutura, o agronegócio brasileiro ainda carece de aprimoramentos em logística a fim de melhorar sua competitividade, e, para isso, investimentos em densidade de rede de transportes terrestres e na melhoria da conexão marítima são fundamentais.

Ainda em infraestrutura, outro grande desafio vivenciado por produtores rurais é a conectividade. Apesar de uma pesquisa recente da Associação Brasileira de Marketing Rural e Agro (2021) apontar que 94% dos produtores têm smartphones e 74% deles usam a internet para se atualizar, o Censo Agropecuário 2017 mostrou que 72% dos estabelecimentos rurais no Brasil não têm acesso à internet, o que limita o acesso do campo a novas tecnologias. Uma forma de solucionar esse desafio é integrar agentes públicos e privados a fim de alavancar o acesso a diferentes capitais e incentivar o investimento financeiro visando levar conectividade às áreas rurais.

O segundo desafio latente é a educação. O Censo Agropecuário 2017 (IBGE, 2017) apontou que cerca de 23% dos produtores rurais não sabem ler nem escrever. Além disso, ao olhar para o nível de instrução, há maior concentração de produtores com ensino fundamental e uma menor concentração deles com ensino médio e superior. Isso limita o acesso ao capital de conhecimento para boa parte dos produtores, interferindo na adoção de tecnologias e de novas práticas agrícolas. Afinal, como pro- mover uma agricultura de baixo carbono ou uma agricultura de abordagem regenerativa focada na saúde do solo, se os produtores não possuírem acesso ao conhecimento de como integrar essas práticas em suas áreas ou o apoio de profissionais capacitados para fazer isso?

Relevante lembrar inclusive que os desafios de educação e a falta de conectividade também dificultam o processo de digitalização no campo, algo fundamental não apenas para os produtores, mas também para toda a cadeia produtiva. Portanto, é preciso direcionar esforços e recursos para inclusão e letramento digital dos produtores rurais para, assim, haver maior e melhor mobilização de capital social, humano e de conhecimento que impactará nos capitais produtivo e natural nesse processo de construção de um agronegócio exportador de alimentos, tecnologia e soluções sustentáveis até 2050.

Os desafios de educação e a falta de conectividade também dificultam o processo de digitalização no campo

Por fim, o último desafio é a oferta e o acesso ao financiamento. É preciso recursos para educação, infraestrutura e para a transição da produção de alimentos para novos modelos mais produtivos, sustentáveis e resilientes ao clima – como agricultura de baixo carbono e regenerativa. Porém, no Brasil, o cenário ainda é de restrição de recursos para o crédito rural. Isso, nos últimos anos, provocou a adoção de uma política de diversificação das fontes de financiamento, com incentivo da participação do mercado de capitais (Halum, 2021). Essa aproximação entre o mercado de capitais e o agronegócio brasileiro deve reforçar cada vez mais a importância da transparência e a governança no setor, principalmente com ascensão das pautas ESG.

Considerações

Os desafios são grandes para o agronegócio brasileiro atingir todo o seu poten- cial nas próximas décadas. Em função do cenário macroeconômico e político-social cada vez mais complexo, da crescente demanda por alimentos e da intensificação da produção agrícola em sincronia com o uso controlado de recursos naturais, é preciso ganhar eficiência operacional e implementar boas práticas e novos sistemas de produção.

Em paralelo aos desafios, há também oportunidades para que o agronegócio seja um exportador de tecnologias – principalmente para agricultura tropical –, soluções sustentáveis – como os créditos de carbono, serviços ambientais, títulos verdes – e produtos com alto valor agregado, certificados e diferenciados.

Além disso, ao falar de mudança do clima, é preciso reforçar a perspectiva do agronegócio como parte da solução e não apenas do problema. Isso porque os solos são um dos principais sumidouros de carbono, sendo possível, por meio de práticas agrícolas adequadas, não só elevar a produtividade das lavouras, como também aumentar o estoque de carbono no solo.

Nesse contexto, a tecnologia tem o papel fundamental de ajudar a viabilizar e escalar, com transparência, essa transição do agronegócio brasileiro para modelos ainda mais produtivos, sustentáveis e resilientes ao clima, bem como promover uma boa comunicação entre as partes interessadas – produtores, reguladores, investidores e parceiros comerciais.

A transição geracional também é parte relevante nesse cenário e deve colaborar para acelerar a agenda de sustentabilidade e a digitalização no agronegócio brasileiro, uma vez que, nos próximos anos, as gerações já nativas do mundo digital devem se tornar tomadoras de decisão e assumir posições de liderança nos setores público e privado.

O mundo precisará, cada vez mais, de alimentos e de tecnologia para a agricultura tropical. O agronegócio brasileiro tem condições de superar seus desafios e assumir a liderança global nessas duas frentes, pautado pela agropecuária sustentável capaz de contribuir para o enfrentamento de questões socioeconômicas e ambientais complexas.

O futuro da agricultura brasileira: 10 visões

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BIBLIOGRAFIA E LINKS RELACIONADOS

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Tags: Agricultura de baixo carbono, agronegócio, biocombustivel, cooperativismo, Desenvolvimento sustentável, inovacao, Segurança alimentar

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