O que você precisa saber sobre controle biológico em frutíferas

controle biológico em frutíferas

Introdução

O Brasil é um dos maiores produtores de frutas do mundo, com uma produção total estimada em 43 milhões de toneladas em 2019, tendo com certeza estratégias de controle biológico de frutíferas e continuando no terceiro lugar no ranking mundial, atrás apenas de China e Índia (Anuário 2020).

Entretanto, o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA) da ANVISA, têm encontrado resíduos de agrotóxicos em diversas espécies de frutas. No relatório 2017/18, os maiores percentuais foram detectados em amostras de laranja, goiaba e uva.

Neste contexto, cresce a preocupação da sociedade com a conservação ambiental e a contaminação dos alimentos comercializados no país.

Além disso, esse tipo de contaminação também dificulta a exportação para mercados mais exigentes, como a União Europeia.

Desta forma, o setor produtivo busca métodos de produção agrícola com enfoque ecológicos, rentáveis e socialmente justos, com destaque para o controle biológico.

O controle biológico é visto atualmente como a principal estratégia de controle de pragas na produção de frutíferas em um futuro próximo.

Estratégias de controle biológico de frutíferas

As principais estratégias são o controle biológico conservativo, que visa, aumentar a abundância e a eficiência dos inimigos naturais que já estão presentes nos pomares, e o aumentativo, que é realizado através da liberação de predadores, parasitoides e patógenos, de maneira inundativa ou inoculativa.

Essas estratégias também podem ser utilizadas de maneira integrada e complementar.

  1. Controle biológico conservativo

A utilização de plantas de cobertura que favoreçam a manutenção e o aumento de predadores de pragas em diversas frutíferas é uma medida importante, pois fornece abrigo, alimento e microclima favorável aos inimigos naturais.

Pode-se citar, o exemplo do mentrasto (Ageratum conyzoides), que é uma planta espontânea em pomares, especialmente de citros, que proporciona aumento da população de ácaros predadores e diminuição de ácaros-praga.

  1. Controle biológico aumentativo

Consiste na liberação, inundativa ou inoculativa, de inimigos naturais em pomares, visando o controle de pragas. Um exemplo desse tipo de estratégia, é o controle do ácaro-vermelho-da macieira, Panonychus ulmi, que pode ser realizado por meio de criações do ácaro predador Neoseiulus californicus e posterior liberação inoculativa nos pomares de macieira.

  1. Combinação de estratégias

O controle biológico pode ser ainda mais efetivo, quando é realizada a integração de estratégias.

Um exemplo é o controle biológico de frutíferas e também o controle biológico de ácaros-praga em cultivos de morangueiros. Os principais agentes biológicos são fungos, como o Beauveria bassiana e os ácaros predadores.

Os fungos são aplicados por meio do preparo de caldas e pulverização na lavoura, uma estratégia aumentativa.

Com relação aos ácaros predadores, uma outra estratégia é a utilização de alimentos alternativos para os ácaros predadores, visando aumentar a eficiência do controle biológico.

Como várias espécies de ácaros predadores alimentam-se de pragas e também de outras fontes (pólen e néctar), é possível além da liberação dos predadores na área, a aplicação de pólen como suplemento alimentar do ácaro predador, levando a um aumento na taxa de reprodução e de multiplicação dos predadores, acelerando assim o controle.

Desta forma, a integração de estratégias tende a impulsionar a eficiência do controle biológico.

Tabela 1. Agentes de controle biológico de pragas de diversas espécies frutíferas.

Espécie Agente de controle biológico Praga-alvo
Abacaxi Bacillus thuringiensis broca-do-abacaxi e broca-do-fruto
Banana Beauveria ba ssiana broca-do-rizoma e moleque-da-bananeira
Banana Bacillus thuringiensis lagarta-desfolhadora
Citros Bacillus thuringiensis bicho-furão
Coco

 

Bacillus thuringiensis lagarta-das-palmeiras; lagarta-do-coqueiro; lagarta-desfolhadora e lagarta-verde-do-coqueiro
Maçã Bacillus thuringiensis Grapholita ou mariposa-oriental
Maracujá Bacillus thuringiensis lagarta-das-folhas e lagarta-do-maracujazeiro
Morango Beauveria bassiana ácaro-rajado
Uva Ba cillus thuringiensis lagarta-das-fruteiras

Adaptado de Venzon et al. (2016).

Controle biológico de algumas pragas-chave de frutíferas no Brasil

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MOSCA-DAS-FRUTAS

Mundialmente, as moscas-das-frutas são as principais pragas da fruticultura. Dentre as espécies de moscas-das-frutas presentes no Brasil, as principais são: Anastrepha fraterculus, A. obliqua, A. grandis, Ceratitis capitata, Bactrocera carambolae e Drosophila suzukii.

Parasitóides nativos

No Brasil, as moscas-das-frutas são atacadas por várias espécies de parasitóides das famílias Braconidae, Figitidae, Pteromalidae e Diapriidae.

Atualmente, existem inúmeras espécies de parasitóides registradas para o controle das espécies de mosca-das-frutas presentes no Brasil (Tabela 2).

Tabela 2. Espécies de parasitóides que atacam moscas-das-frutas no Brasil.

Família Espécie Instar que atua
Braconidae Asobara anastrephae Larva-pupa
Braconidae Idiasta delicata Larva-pupa
Braconidae Doryctobracon areolatus Larva-pupa
Braconidae Doryctobracon crawfordi Larva-pupa
Braconidae Doryctobracon fluminensis Larva-pupa
Braconidae Microcrasis lonchaeae Larva-pupa
Braconidae Opius bellus Larva-pupa
Braconidae Opius itatiayensis Larva-pupa
Braconidae Opius tomoplagiae Larva-pupa
Braconidae Utetes anastrephae Larva-pupa
Figitidae Aganaspis nordlanderi Larva-pupa
Figitidae Aganaspis pelleranoi Larva-pupa
Figitidae Lopheucoila anastrephae Larva-pupa
Figitidae Odontosema anastrephae Larva-pupa
Figitidae Odontosema albinerve Larva-pupa
Figitidae Tropideucoila weldi Larva-pupa
Figitidae Tropideucoila rufipes Larva-pupa
Figitidae Trybliographa Larva-pupa
Figitidae Trybliographa infuscata Larva-pupa
Pteromalidae Pachrycrepoideus vindemmiae Pupa
Pteromalidae Spalangia endius Pupa
Diapriidae Coptera haywardi Pupa
Diapriidae Trichopria anastrephae Pupa

Adaptado de Paranhos et al. (2019).

Uma tecnologia inovadora utiliza parasitoides nativos para controlar as moscas-das-frutas (A.fraterculus e C. capitata), foi desenvolvida por pesquisadores do Laboratório de Entomologia da Embrapa Clima Temperado, em Pelotas (RS). A tecnologia emprega a vespa Doryctobracon areolatus (Figura 1), que alcançou até 40% de parasitismo das larvas da mosca (Link reportagem).

Figura 1. Vespa Doryctobracon areolatus. Foto: Paulo Lanzetta.

Algumas vespinhas parasitoides já foram encontradas associadas a D. suzukii, mas sem apresentar resultados muito animadores. Acredita-se que o baixo parasitismo possa estar associado ao comportamento peculiar desse drosofilídeo, uma vez que os ovos e larvas de D. suzukii ficam protegidos dentro dos frutos, em relação aos que ovipositam e completam seu desenvolvimento em frutos danificados e expostos.

Parasitóides introduzidos no Brasil

O primeiro parasitóide de mosca-das-frutas introduzido no Brasil foi o endoparasitóide de larva-pupa Tetrastichus giffardianus para o controle da mosca do mediterrâneo (Ceratitis capitata) em citros.

O endoparasitóide de larva-pupa, Diachasmimorpha longicaudata foi introduzido no Brasil em 1994 e foi facilmente criada em laboratório, com larvas de C. capitata e A. fraterculus.

Em todas as áreas onde essas vespas foram liberadas, houve registros de sucesso no seu estabelecimento, sem impacto negativo sobre as espécies de parasitóides nativos. Entretanto na região do Sul as vespas tiveram problema de estabelecimento, provavelmente devido aos invernos mais frios.

Diachasmimorpha longicaudata é a espécie de vespa mais estudada devido à sua boa adaptação ao ambiente de laboratório e procedimentos de criação simples em condições artificiais. Além de ser uma espécie que ataca um grande número de espécies, incluindo Anastrepha, Ceratitis e Bactrocera.

Mas a principal restrição contra o uso amplo de parasitóides larvais é o tamanho do fruto, uma vez que o ovipositor fêmea pode não atingir as larvas localizadas mais profundamente em frutos maiores.

Pela falta de parasitóides de ovos de mosca-das-frutas, a Embrapa Amapá importou dos Estados Unidos em 2012 a espécie F. arisanus, que está em processo de avaliação nas condições brasileiras.

Técnica do inseto estéril (TIE)

Consiste na criação massal do macho da praga que se deseja controlar, na sua esterilização com radiação gama e na liberação semanal de uma população dez vezes maior do que a selvagem no campo. O macho estéril copula com a fêmea selvagem e, por ser estéril, não gera descendentes.

Diversos países possuem programas nacionais de TIE, com biofábricas para criação de C. capitata e algumas espécies dos gêneros Anastrepha e Bactrocera para o controle e/ou erradicação dessas moscas.

A expansão do uso desta técnica tem provado sucesso em proteger áreas de fruticultura contra a infestação de mosca-do-mediterrâneo, C. capitata, e prevenir embargos de bilhões de dólares em programas de exportação de frutas.

Fungos entomopatógenos

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Algumas cepas dos fungos Metarhizium anisopliae e Beauveria bassiana (Figura 2), têm mostrado um grande potencial para seu uso contra A. fraterculus e C. capitata.

Figura 2. Sintomas de infecção em adultos de Ceratitis capitata por isolado de Beauveria bassiana. Adaptado de CHERGUI et l. (2020).

Em relação aos nematóides, verificou-se que a virulência dos gêneros Steinernema (Figura 3) e Heterorhabditis foi de até 88% para C. capitata.

Os resultados envolvendo o uso de fungos e nematoides para o controle de D. suzukii indicam que esses organismos promovem uma diminuição na população de D. suzukii, mas seu uso isolado não é capaz de promover um controle efetivo.

Figura 3. Larva da mariposa da bananeira dissecada mostrando vários estágios de vida do nematóide Steinernema carpocapsae. Adaptado de: DOLINSKI & LACEY (2007). Foto: R. Duncan e J. Peña.

MARIPOSA-ORIENTAL, BROCA-DOS-PONTEIROS OU GRAFOLITA (Grapholita molesta)

É uma das principais pragas da cultura do pessegueiro. A conservação de inimigos naturais representa uma importante estratégia no manejo de G. molesta.

Dentre os principais inimigos naturais da G. molesta, destaca-se o parasitoide de lagarta Macrocentrus ancylivorus (Figura 4), que foi introduzido no Brasil em 1944, visando ao controle biológico clássico e desde então, tem sido encontrado, sendo que os maiores índices de parasitismo (até 80%) têm sido observados em pessegueiro nos meses de janeiro a maio, período em que os danos da mariposa-oriental já foram causados.

Figura 4. Vespa parasitóide Macrocentrus ancylivorus.

O parasitoide de ovos Trichogramma pretiosum também tem sido encontrado naturalmente nos pomares. Embora os índices de parasitismo sejam menores do que proporcionado para M. ancylivorus.

BICHO-FURÃO DO CITROS (Gymnandrosoma aurantiana)

As lagartas recém-eclodidas penetram nos frutos e formam galerias internas ao se alimentarem da polpa, tornando-os inviáveis tanto para o consumo in natura quanto para o processamento industrial.

O uso de produtos biológicos é indicado para infestações baixas. Os inseticidas biológicos, à base de Bacillus thuringiensis, são eficientes por até 60 dias. A primeira aplicação deve ser feita logo que constatada a existência de mais de seis machos por armadilha. A segunda aplicação é feita entre 20 e 30 dias depois. Esses inseticidas agem por mais tempo quando misturados com óleo vegetal ou mineral.

A pulverização deve ser feita por cobertura em toda a planta, em um período de sete a oito dias após se atingir o nível de controle. O objetivo é esperar a postura e fazer o controle antes que a lagarta penetre no fruto.

BROCA-DO-RIZOMA (Cosmopolites sordidus)

É a principal praga que ataca a cultura da bananeira, conhecida também por moleque-da-bananeira. As larvas são responsáveis pelos danos à planta, ao construírem galerias no rizoma.

O ataque desta praga pode reduzir a produção de bananais ´Prata´ em até 30%. Em variedades mais suscetíveis, como a Nanica, as perdas decorrentes da redução no peso e no tamanho dos frutos chegam a 80%.

A utilização do fungo Beauveria bassiana como agente biológico de controle da praga, oferece boas perspectivas de aplicação prática (Figura 5).

Nos testes de campo, o fungo é preparado na forma de pasta, que é distribuída em iscas de bananeiras do tipo “telha”, ficando sobre a superfície em contato com o solo. Segundo alguns estudos, após 40 dias, B. bassiana havia reduzido a população de adultos da broca em até 61%.

Figura 5. Broca-do-rizoma adulto infectado com Beauveria bassiana. Foto: R. Duncan e J. Peña

Os besouros histerídeos Omalodes foveola e Hololepta quadridentata são inimigos naturais que alimentam-se de larvas de C. sordidus.

ÁCARO-BRANCO (Polyphagotarsonemus latus) E ÁCARO-RAJADO (Tetranychus urticae) DO MAMOEIRO

Os danos manifestam-se em folhas jovens, no ponteiro da planta, ou nas brotações laterais. Com a evolução dos danos, ocorre a paralisação da atividade vegetativa.

À medida que as folhas mais velhas caem, o mamoeiro perde o capitel de folhas, ocorrem reduções do porte da planta e do número de flores, drástica queda na produção e depreciação do valor comercial dos frutos, em consequência da exposição direta aos raios solares.

Dentre os inimigos naturais com potencial de controlar os ácaros do mamoeiro, destacam-se os ácaros predadores da família Phytoseiidae.

Alguns estudos indicam que Amblyseius lailae, A. largoensis e Phytoseiulus macropilis tem potencial de predação de ácaros fitófagos no mamoeiro.

Uma alternativa que parece promissora é o uso da espécie N. californicus, empregada com sucesso no controle de T. urticae na cultura da macieira no Sul do Brasil.

CONSIDERAÇÕES

O controle biológico é sem dúvidas o futuro do controle de pragas em frutíferas, especialmente quando associado com o controle cultural e o uso de cultivares resistentes.

Entretanto, ainda há um longo caminho que precisa ser percorrido pela pesquisa e que deve ser incentivado pelo setor produtivo.

Links relacionados

– VENZON, M.; DIEZ-RODRÍGUEZ, G.I.; FERRAZ, C.S.; LEMOS, F.; NAVA, D. E; PALLINI, A.. Manejo agroecológico das pragas das fruteiras. Informe Agropecuário. Manejo de pragas de fruteiras tropicais, Belo Horizonte, v. 37, n. 293, p. 94-103, 2016. Disponível em: https://epamig.wordpress.com/2017/03/29/controle-de-pragas-na-fruticultura-tropical/

– PARANHOS, B.J.; NAVA, D.E; MALAVASI, A. Biological control of fruit flies in Brazil. Pesq. agropec. bras., v.54, e26037, 2019. Disponível em: https://doi.org/10.1590/s1678-3921.pab2019.v54.26037

– MARTINS, D.S.; FORNAZIER, M.J.; FANTON, C.J.; QUEIROZ, R.B.; ZANUNCIO JUNIOR, J.S. Manejo de pragas de fruteiras tropicais. Informe Agropecuário, Belo Horizonte, v. 37, n. 293, p. 30-42, 2016. Disponível em: https://biblioteca.incaper.es.gov.br/digital/bitstream/item/2698/1/BRT-2016.-Martins-et-al.-Pragas-do-Mamoeiro-Informe-Agropecuario.pdf

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