Bioinsumos: tratamento de sementes

o impacto da má distribuição do plantio na produtividade das culturas da soja e milho.

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(Curadoria Agro Insight)

A curadoria de hoje é sobre o uso de bioinsumos na agricultura. Trouxemos parte do capítulo do livro “Bioinsumos na cultura da soja”, de autoria dos pesquisadores Jean Carlo Possenti e Géri Eduardo Meneghello, intitulado: Tratamento de sementes e sulco de semeadura. Tratamento de sementes e sulco de semeadura

Perspectiva histórica e a importância do tratamento de sementes

A natureza funciona de forma perfeitamente harmônica. Em uma porção de solo com uma vegetação nativa, existe uma diversidade de microrganismos em equilíbrio, com funções  distintas ou exercendo inteirações.

Há milhares de anos atrás, quando as primeiras civilizações desenvolveram o cultivo das plantas, deixando de ser nômades, estabelecendo-se em locais onde era possível cultivar o seu próprio alimento. Com o avanço da agricultura, ocorreu a alteração do equilíbrio biológico do solo, ou seja, a saúde do solo. De toda sorte, mesmo atualmente e em solos com intenso cultivo agrícola, ainda existe uma ampla diversidade biológica atuando na decomposição da matéria orgânica, ciclagem de nutrientes, atividades endofíticas, dentre outras.

Ao se tentar combater o que acomete as lavouras, em geral, não se leva em conta, que no sistema biológico, talvez a cultura que está sendo conduzida naquele ambiente, seja de fato o elemento estranho. Assim, animais e microrganismos existentes no solo, tendem a atacar as sementes e as plantas das culturas, da mesma forma que o fazem até mesmo com sementes e plantas nativas que, de forma natural, ocorrem. Para tais organismos, as sementes no solo, são oportunidade de alimento e fonte de energia. O homem sempre procurou proteger seus cultivos e a sua produção agrícola. Relatos de antigas literaturas, já davam conta das mais diversas variedades de substâncias sendo usadas na proteção das plantas ainda que, de uma forma rudimentar quando comparadas às da atualidade.

Nos primórdios do tratamento de sementes, relatos históricos mostram que na Grécia e Egito antigo, foram usadas substâncias com essência de alho, misturas de cal com água salgada, álcool, arsênico, cloreto de mercúrio, sulfato de cobre dentre outras. Inclusive, alguns destes antigos produtos, possuíam moléculas muito tóxicas ao homem e ao meio ambiente, como organomercuriais e hidrocarbonetos aromáticos (Almasi; Almasi, 2005).

Com o advento da “Revolução Verde” no período Pós-Guerra, muitas moléculas químicas assaram a ser usadas neste sentido, surgindo assim, a indústria dos defensivos agrícolas, bem como tornando popular a sua adoção pelos agricultores mundo afora. Descobriu-se então que era possível “tratar” as sementes dos cultivos, com determinados produtos, a fim de que estas pudessem estar protegidas contra a ação de pragas e moléstias que atacavam inicialmente as plantas.

A evolução dos programas de melhoramento vegetal, atrelados ao lançamento de cultivares que expressam altos potenciais produtivos, bem como da própria indústria fornecedora de insumos e máquinas inovadoras, foram seguidos de técnicas de manejo diferenciadas. A produção agrícola tem se modernizado em velocidade espantosa nas últimas três décadas e na mesma esteira da evolução tecnológica, evoluíram-se também os sistemas de tratamentos de sementes, contribuindo para lavouras com adequado estande e desenvolvimento uniforme das plantas.

A importância do tratamento de sementes é relatada por Borges (2019), na obra que apresenta a Visão Técnica de Dirceu Gassen: “A evolução na agricultura com a necessidade de estabelecer metas de aumento de produção, usando novas cultivares, nutrição equilibrada e outras práticas culturais, exige qualidade total em todos os segmentos, especialmente nas fases de germinação e estabelecimento das plantas nas lavouras de grãos. As culturas com baixa população de plantas como milho, girassol e soja podem sofrer danos severos de pragas nas fases de germinação e de plântula e resultar na redução do potencial de produção das lavouras. Nestes casos, o tratamento de sementes com inseticidas é uma importante estratégia de proteção nas fases de germinação e de plântula garantem o estabelecimento uniforme das populações de plantas na lavoura”.

Como exposto, o tratamento de sementes em soja inicialmente tinha um foco mais específico, para proteção ao ataque de pragas, fato que logo foi aperfeiçoado com a inserção de fungicidas e nematicidas, considerando os danos por fitopatógenos de solo. Mais recentemente, vem sendo inserido nas sementes ou em sulco de semeadura, além dos produtos fitossanitários, nutrientes, estimulantes, inoculantes, entre outros.

Não se consegue abordar corretamente a evolução do tratamento de sementes, sem, contudo, fazer uma relação com o setor sementeiro. Especialmente no Brasil, o tratamento de sementes tem acompanhado plenamente as evoluções, avanços e inovações aos quais o setor sementeiro tem sido submetido (Menten; Moraes, 2010). Desta maneira, em praticamente duas décadas, a agricultura nacional evoluiu desde as práticas onde as sementes eram tratadas em uma caixa, tambor ou sobre uma lona, revolvidas manualmente. Aonde os produtos, eram aplicados nas sementes “à olho” com baixíssima precisão e sem maiores preocupações quanto a proteção das pessoas que realizavam esta operação. A evolução se deu para modernos sistemas computadorizados de tratamento, com acompanhamento online da deposição dos produtos, ou seja, com alta precisão e com grande preocupação quanto a segurança do trabalhador e do usuário final.

Atualmente, com o advento do uso dos produtos biológicos em larga escala, esse cenário vem  sendo aperfeiçoado. Considerando o uso integrado de defensivos químicos com biológicos na proteção  das sementes e plântulas, é necessário o entendimento dos produtos utilizados, formas de  tratamentos e aplicações, assuntos que serão abordados nesse capítulo.

Produtos aplicados às sementes

Embora inicialmente, os produtos adicionados às sementes possuíam unicamente o objetivo de conferir algum tipo de proteção, como fungicidas e inseticidas, atualmente, muitos outros são utilizados de forma isolada ou associados.

Para efeito de caracterização, os produtos aplicados às sementes são classificados como fitossanitários,  fertilizantes, bioestimulantes, biorreguladores, inoculantes e outros.

Produtos fitossanitários

Os produtos fitossanitários representam a maior quantidade das substâncias aplicadas às sementes, uma vez que, provavelmente, seja a forma mais consolidada para o controle de doenças transmitidas por elas, especialmente daquelas causadas por fungos.

Nutrientes

As sementes também podem ser usadas como veículo para a fertilização do cultivo. Entretanto, apesar da pequena quantidade possível de ser adicionada a elas, é um facilitador para que micronutrientes sejam aplicados e utilizados pela cultura.

Bioestimulantes e biorreguladores

Juntamente com a intensificação dos produtos de origem biológica para controle principalmente das doenças, aplicados às sementes, surgiram também os produtos denominados de bioestimulantes e biorreguladores. A fisiologia vegetal aponta que muitas substâncias de origem orgânica (produzidas pela própria planta), são reguladores de crescimento, como por exemplo os fitohormônios. Surgiu desta forma o conceito dos biorreguladores, que são compostos orgânicos, não nutrientes e que uma vez aplicados às sementes ou à própria planta, em baixas concentrações, podem promover inibir ou modificar processos de crescimento vegetal. Dentre tais substâncias podem ser citadas as citocininas, as giberelinas, as auxinas, bem como os retardadores, os inibidores e o etileno (Morzelle et al., 2017).

Inoculantes

Apesar de terem sido isoladas na natureza por cientistas alemães no final do século XIX, as bactérias fixadoras de nitrogênio passaram a ser usadas de forma comercial em associação com leguminosas nos cultivos, a partir de meados do século seguinte.

Produtos diversos

Durante o processo do tratamento das sementes, também podem ser aplicados outros produtos com finalidades distintas das aqui classificadas, como por exemplo, pós secantes, produtos para aumentar a fluidez na semeadura, corantes, pós de rocha, entre outros. Tais substâncias, na maioria das vezes, não visam proteger contra um agente externo da semente, ajudar nos seus processos fisiológicos ou ainda promover algum tipo de associação da plântula com determinado microrganismo. Mas sim, facilitar sua identificação e melhorar o desempenho da operação de semeadura.

Considerações e perspectivas futuras

Fatores como a qualidade das sementes, os produtos e suas formulações, o preparo da calda e suas associações, forma de tratamento e equipamentos utilizados são aspectos importantes a serem considerados e que, influenciam na qualidade final do trabalho realizado.

O tratamento das sementes é um fator determinante para a manutenção da população de plantas no campo. Por outro lado, é importante ressaltar que deve verificar a alta qualidade do lote de sementes, sobretudo a qualidade fisiológica. Pois o tratamento por si só, não melhora os atributos de (vigor e germinação) de um lote de sementes.

Existe uma série de fatores que podem causar a redução da qualidade das sementes e entre eles se destacam, os danos mecânicos, condições adversas de clima, dano por insetos e microrganismos e condições inadequadas durante o armazenamento. Para a produção de sementes de qualidade garantida, primeiro se deve considerar o manejo adequado dos campos de produção. Adicionalmente, somam-se a isto a utilização de máquinas e equipamentos adequados durante os processos de colheita, secagem e beneficiamento, armazenamento em local onde a temperatura e umidade relativa do ar sejam adequadas para minimizar a sua atividade metabólica.

Os produtos usados e as suas formulações, também assumem papel de importância nos resultados obtidos. A maior ou menor eficiência do tratamento das sementes, independentemente de como é realizada a sua aplicação, é diretamente dependente da qualidade e especificidade dos produtos utilizados. Mais especificamente deve-se atentar quanto ao tipo da sua formulação, a concentração do produto, o que impacta na facilidade de aplicar, na sua estabilidade além das suas propriedades adesivas na superfície da semente.

A prescrição da receita agronômica e o preparo da calda, principalmente nos equipamentos não totalmente automatizados, devem ser realizados com extrema precisão. O volume a ser aplicado para proporcionar adequada cobertura, bem como a presença de adjuvantes adesivos, diluição ou não com água e sua quantidade adequada para preparo da calda, devem receber especial atenção. Ainda, atentar para a possibilidade de misturas com diferentes substâncias e suas possíveis reações de sinergismo e/ou antagonismo físico, químico e biológico, que poderão ir desde a inativação dos produtos (incompatibilidade), até em casos mais graves, reações severas de fitotoxicidade sobre a germinação das sementes.

O sistema de distribuição do defensivo sobre as sementes, parte fundamental do equipamento utilizado, deve ser conhecido e levado em consideração no momento de prescrição da receita para o tratamento de sementes. A existência da possibilidade de monitoramento do processo de tratamento, bem como sobre a precisão no sistema de dosificação e aplicação e, exposição do operador aos produtos químicos e biológicos usados, devem ser devidamente considerados.

Com relação ao uso de agentes biológicos no tratamento das sementes em associação com produtos químicos, deve-se sempre considerar problemas de incompatibilidades, limite de calda na semente, excesso de manuseio e consequentes danos mecânicos. Nesse sentido, deve-se sempre considerar a possibilidade que os produtos biológicos sejam aplicados via sulco de semeadura. Desta maneira, tanto para inoculantes como para os fungicidas, nematicidas e inseticidas microbiológicos esta modalidade de aplicação é a mais recomendada.

BIBLIOGRAFIA E LINKS RELACIONADOS

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Tags: Bioinsumo, sementes, soja

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