Aspectos básicos sobre adubação

Aspectos básicos sobre adubação

A adubação tem por objetivo manter ou elevar os teores de nutrientes no solo a níveis adequados para que as culturas possam expressar seu máximo potencial de rendimento e qualidade.

Os fertilizantes que são utilizados para fornecer nutrientes às plantas representam uma parcela significativa do custo de produção da maioria das culturas. Assim, o uso racional destes insumos é fundamental para a viabilidade do sistema de produção.

Tendo em vista a importância da realização de uma adubação adequada, no presente artigo vamos abordar os principais aspectos que devem ser observados para a realização dessa prática agrícola.

1. CARACTERÍSTICAS DOS PRINCIPAIS FERTILIZANTES MINERAIS

1.1. Fertilizantes nitrogenados

O principal uso dos fertilizantes nitrogenados é nas adubações de cobertura, após a emergência ou plantio.

As formas de nitrogênio (N) mais comuns nos adubos são nitrato (NO3), amônio (NH4+), amônia (NH3) e amina (NH2). Já as principais fontes de N são a ureia, o sulfato de amônio e o nitrato de amônio.

A ureia é a fonte com maior possibilidade de perda de N por volatilização. Em casos de comprovação de perdas significativas por volatilização, pode-se optar pela aplicação de nitrato de amônio ou sulfato de amônio ou, então, adotar algumas práticas, como a incorporação, aplicação anterior à chuva ou uso de ureia com inibidores de urease.

1.2. Fertilizantes fosfatados

a) Fosfatos solúveis

As principais formas de fósforo (P) nos adubos são: fosfato monocálcico, bicálcico e tricálcico. O superfosfato simples e o superfosfato triplo contêm fosfato monocálcico e são obtidos pela reação da rocha fosfática com ácido sulfúrico e fosfórico.

O superfosfato simples tem como vantagem a presença de enxofre, elemento que é deficiente em muitos solos. Por outro lado, o superfosfato triplo possui maior concentração de P2O5, podendo apresentar menor custo.

b) Fosfatos naturais e termofosfatos

Os fosfatos naturais são originários de rochas e sua eficiência está em torno de 70% quando comparado aos fosfatos solúveis. Por essa razão, recomenda-se uma relação de preço por kg de P2O5 de 0,7 em relação à fonte solúvel mais barata. Abaixo dessa relação, o uso dos fosfatos naturais reativos se torna mais econômico.

Os termofosfatos são obtidos pelo tratamento térmico dos fosfatos naturais com adição de compostos de magnésio e silício. Apresentam alto índice de eficiência no solo, contudo o processo para a sua obtenção é mais oneroso, sendo em geral mais caro.

1.3. Fertilizantes potássicos

Os principais fertilizantes fonte de potássico (K) são o cloreto de potássio e o sulfato de potássio. Nas espécies sensíveis ao cloro, como a batata e o fumo, pode ser necessário o uso do sulfato de potássio. Nas demais espécies, deve-se utilizar a fonte com menor custo, que geralmente é o cloreto de potássio.

O K pode ser aplicado no sulco de semeadura ou em cobertura. Nas aplicações no sulco, deve-se evitar o contato do adubo com a semente, devido ao efeito salino.

1.4. Fertilizantes mistos

Os fertilizantes mistos são aqueles que contêm um ou mais nutrientes e podem ser aplicados isoladamente ou em mistura. Possuem alta concentração de nutrientes (NPK) e alta solubilidade. Os principais exemplos de adubos mistos, são o fosfato monoamônico (MAP), o fosfato diamônico (DAP), o nitrato de potássio e o nitrofosfato.

1.5. Macronutrientes secundários e micronutrientes

Quando comprovada a necessidade, a aplicação desses nutrientes via solo pode ser feita por fertilizantes simples, por misturas ou por fórmulas NPK acrescidas de um ou mais nutrientes. Contudo, a utilização de calcário, adubos fosfatados e adubos orgânicos repõe em parte ou totalmente os micronutrientes necessários. Nos casos de carência de algum micronutriente, a adubação foliar é uma alternativa viável para diversas culturas, havendo um amplo leque de produtos no mercado.

Os teores médios de nutrientes nos principais fertilizantes utilizados no Brasil, são apresentados na Tabela 1.

Tabela 1. Teores solúveis de nutrientes dos principais fertilizantes nitrogenados, fosfatados e potássicos.

Fertilizante Teor do nutriente principal Teor de nutrientes adicionais
Nitrogenado
Ureia 45% de N
Sulfato de amônio 20% de N 22 a 24% de S
Nitrato de amônio 32 a 34% de N
Nitrato de cálcio 15% de N 26% de CaO
Nitrato de sódio (salitre do Chile) 16% de N
Nitrocálcio 20% de N 10% de CaO e 7% de MgO
Fosfatado
Superfosfato simples 16 a 21% de P2O5 18 a 20% de Ca e 10 a 12% de S
Superfosfato triplo 41 a 48% de P2O5 12 a 14% de Ca e 0,5% de MgO
Fosfato monoamônico (MAP) 44 a 50% de P2O5 9 a 11% de N
Fosfato diamônico (DAP) 38 a 48% de P2O5 9 a 11% de N
Fosfato natural 24% de P2O5 total* 23 a 27% de CaO
Fosfato natural reativo (Gafsa, Arad e Daoui) 28 a 33% de P2O5 total* 45 a 50% de CaO e 0,2 a 0,9% de MgO
Fosfato natural reativo (Bayóvar) – 28 a 33% de P2O5 total*

– 9 a 13% solúvel em ácido cítrico**

Fosfato natural reativo – 29% de P2O5 total*

– 14% solúvel em ácido cítrico**

Termofosfato – 17 a 19% de P2O5 total*

– 14% de P2O5 em ácido cítrico**

18 a 30% de CaO e 7 a 18% de MgO
Potássicos
Cloreto de potássio 58 a 62% de K2O 45 a 48% de Cl
Sulfato de potássio 48 a 52% de K2O 2 a 3% de cloro e 17% de S
Nitrato de potásio 44% de K2O 13% de N

* Solúvel em ácidos fortes concentrados, tendo menor solubilidade na solução do solo (efeito a médio prazo). ** Solúvel em ácido cítrico, rapidamente solúvel na solução do solo.

2. CARACTERÍSTICAS DOS PRINCIPAIS FERTILIZANTES ORGÂNICOS

Diversos materiais orgânicos podem ser utilizados como fertilizante. Os estercos, os resíduos de culturas e os adubos verdes constituem as principais fontes de fertilizantes orgânicos .

2.1. Concentração de nutrientes

A concentração de nutrientes nesses materiais é altamente variável em função da sua origem. Entretanto, os teores médios de nutrientes de alguns materiais orgânicos podem ser utilizados como referência caso não seja possível a realização de análise química (Tabela 2).

Tabela 2. Concentrações médias de nutrientes e teor de matéria seca de algumas fontes orgânicas (CQFS-RS/SC, 2004).

Fonte orgânica Carbono N P2O5 K2O Ca Mg Massa seca
(%)
Cama de frango (3-4 lotes) 30 3,2 3,5 2,5 4,0 0,8 75
Cama de peru (2 lotes) 23 5,0 4,0 4,0 3,7 0,8 75
Cama de poedeira 30 1,6 4,9 1,9 14,4 0,9 72
Cama sobreposta de suínos 18 1,5 2,6 1,8 3,6 0,8 40
Esterco sólido de suínos 20 2,1 2,8 2,9 2,8 0,8 25
Esterco sólido de bovinos 30 1,5 1,4 1,5 0,8 0,5 20
Vermicomposto 17 1,5 1,3 1,7 1,4 0,5 50

2.2. Índice de eficiência

Os adubos orgânicos apresentam taxas de liberação de nutrientes no solo muito variáveis,  afetando a disponibilidade para as plantas.

Desta forma, é importante reconhecer que o teor total de nutrientes dos fertilizantes orgânicos não estará 100% disponível nos primeiros ciclos, com exceção do K. Isso ocorre em função da necessidade de mineralização do nutriente que está na forma orgânica, processo que ocorre lentamente.

Na Tabela 3, é possível visualizar a quantidade percentual do N, P e K, que estará disponível nos dois primeiros ciclos após a aplicação dos principais fertilizantes orgânicos utilizados no Brasil.

Tabela 3. Índices de eficiência dos nutrientes no solo de diferentes tipos de resíduos orgânicos em cultivos sucessivos (CQFS-RS/SC, 2004).

Resíduo Nutriente Índice de eficiência (%)
  Primeiro cultivo Segundo cultivo
Cama de frango N 50 20
P 80 20
K 100
Esterco suíno sólido N 60 20
P 80 20
K 100
Esterco bovino sólido N 30 20
P 80 20
K 100
Outros resíduos orgânicos N 50 20
P 70 20
K 100

O K presente nos fertilizantes orgânicos torna-se inteiramente disponível no primeiro cultivo. Isso ocorre pelo fato desse nutriente não fazer parte de nenhum composto orgânico que necessite de mineralização microbiana.

3. TIPOS DE ADUBAÇÃO

A adubação tem por objetivo fornecer nutrientes às plantas para que estas proporcionem o maior retorno econômico possível.

Os tipos de adubação são:

  • Prevenção;
  • Correção;
  • Manutenção;
  • Formação.

3.1. Adubação de prevenção

Esse tipo de adubação se caracteriza por resolver deficiências nutricionais eventuais, sem que se tenha a certeza da necessidade da planta, pois em muitos casos não se tem análise de solo ou de tecido para todos os elementos.

Como exemplo, pode-se citar a aplicação de molibdênio e cobalto em leguminosas via semente, a fim de fornecer molibdênio e cobalto, além de beneficiar a fixação biológica de N.

3.2. Adubação de correção

A adubação de correção visa elevar os teores de P e K no solo até o teor crítico, que é o teor no qual as culturas atinjam um rendimento de aproximadamente 90% do seu rendimento máximo. É a alternativa mais indicada quando os solos são muito deficientes em P e em K.

Quando os resultados da análise indicarem teores de P ou de K “Alto” ou “Muito alto”, a adubação de correção não é indicada. Neste caso, adicionam-se somente as quantidades de manutenção ou o que for exportado pelas culturas (grãos ou massa verde), pois o teor do nutriente no solo é considerado adequado.

3.3. Adubação de manutenção

Este tipo de adubação tem por finalidade manter o nível do nutriente no solo, quando o mesmo atinge teores ideais. Desta forma, procura-se repor possíveis perdas (erosão, lixiviação e fixação) e a quantidade exportada pela cultura nos grãos, frutos, ou pela retirada de outras partes da planta (tronco, folhas e galhos).

3.4. Adubação de formação

É utilizada nos primeiros anos das culturas perenes. Nessa fase, aplica-se pequenas doses de nutrientes com a finalidade de suprir a necessidade de crescimento para a formação da planta. Como exemplo, pode-se citar a adubação nitrogenada nos primeiros anos das frutíferas, período de crescimento e formação das plantas.

4. ADUBAÇÃO FOLIAR

A adubação foliar é realizada para correção de sintomas de deficiência nutricional observados na planta, sendo nesses casos considerada como de caráter emergencial ou curativo. É largamente utilizada para micronutrientes, que são demandados em menor concentração pelas plantas.

5. ADUBAÇÃO VIA SEMENTE

Tem como objetivo atender a demanda do início de desenvolvimento das plantas. Por exemplo, a aplicação de cobalto e molibdênio em leguminosas, além de contribuir com a nutrição da planta também é útil para as bactérias fixadoras de N.

6. ADUBAÇÃO VIA FERTIRRIGAÇÃO

Adubação por fertirrigação utiliza a aplicação de nutrientes em formas hidrossolúveis com a água de irrigação. Além da maior eficiência no aproveitamento do fertilizante, outra grande vantagem proporcionada pela fertirrigação é a possibilidade de parcelamento da dose dos fertilizantes de acordo com a necessidade de cada fase de desenvolvimento da cultura. Dessa forma, é possível balancear a quantidade dos nutrientes conforme a necessidade específica de cada fase.

7. CONSIDERAÇÕES

A adubação é uma das principais alternativas para se elevar a produtividade das culturas. Entretanto, para que o investimento em adubação seja viável, é fundamental que a área de cultivo tenha recebido ou esteja sob o efeito da calagem, pois solos ácidos reduzem a disponibilidade dos nutrientes, mesmo quando estes estão presentes em concentrações suficientes. Além disso, a adubação deve ser realizada em função do resultado da análise do solo e, quando possível, da análise foliar.

BIBLIOGRAFIA E LINKS RELACIONADOS

– CQFS – Comissão de Química e Fertilidade do Solo – RS/SC. Manual de adubação e calagem para os estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Porto Alegre, Sociedade Brasileira de Ciência do Solo. 2004. 400p. Disponível em: http://www.sbcs-nrs.org.br/docs/manual_de_adubacao_2004_versao_internet.pdf

– SBCS/NEPAR – Sociedade Brasileira de Ciência do Solo/Núcleo Estadual Paraná. Manual de adubação e calagem para o estado do Paraná (2ª Edição). Curitiba: Sociedade Brasileira de Ciência do Solo, Núcleo Estadual Paraná. 2017. 482p.

– INGLE, W. D. G. Manual de adubação e calagem para o Estado da Bahia. Embrapa Semiárido – Livro técnico (INFOTECA-E). 1989, 173 p. Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/145390/1/manual-de-adubacao-e-calagem0001.pdf

– RAIJ, B. Van; CANTARELLA, H.; QUAGGIO, J.A.; FURLANI, A.M.C. (Ed.) Recomendações de adubação e calagem para o Estado de São Paulo. 2.ed. Campinas: IAC, 1997. 285p. (Boletim Técnico, 100). Disponível em: http://www.iac.sp.gov.br/publicacoes/boletim100.php

 

 

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