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Sucessão de culturas e consórcio de forrageiras para o controle de plantas daninhas na soja

A semeadura da soja deve seguir o calendário do Programa Nacional de Controle da Ferrugem Asiática da Soja e o Zarc

(Curadoria Agro Insight)

Na curadoria de hoje, trouxemos a pesquisa realizada pelos pesquisadores, Joilson Sodré Filho, Ricardo Carmona, Robélio Leandro Marchão e Arminda Moreira de Carvalho, sobre a utilização de espécies forrageiras perenes e culturas anuais em consórcio no sistema integração lavoura-pecuária em condições de Cerrado. Os resultados foram divulgados nos periódicos Scientia Agricola e Pesquisa Agropecuária Brasileira (PAB) e em uma circular técnica.

Consórcio de grãos com forrageiras controla plantas daninhas na soja

Um estudo da Embrapa Cerrados (DF) mostra que o plantio consorciado de grãos com gramíneas forrageiras é capaz de reduzir a incidência de plantas daninhas no cultivo da soja. Após duas safras com os sistemas, foi possível observar diminuição de até 87% do peso seco dessas espécies invasoras. Paralelamente, a técnica resultou em ganhos de 8% de produtividade média da oleaginosa. Esses resultados indicam que as gramíneas forrageiras, além de atuarem como plantas de cobertura do solo, podem ser inseridas em sistemas consorciados ou em sucessão como uma das estratégias para intensificação sustentável do sistema agrícola.

De acordo com levantamento realizado pela Embrapa Soja (PR) nas principais regiões produtoras do País, os custos de produção em lavouras dessa oleaginosa com plantas daninhas resistentes a herbicidas como o glifosato podem subir até 222%, não somente pelo aumento de gastos com esses produtos, mas também pela perda de produtividade.

Consórcio e sucessão

A pesquisa avaliou o plantio do sorgo granífero consorciado com as espécies forrageiras braquiária ruziziensis (Urochloa ruziziensis) e o capim-marandu (U. brizantha) no cultivo de segunda safra da soja cultivada em sucessão no verão.

Objetivo

O objetivo foi observar como a dinâmica de plantas daninhas no campo é influenciada pelo cultivo de sorgo na safrinha em dois espaçamentos entre linhas (0,5 m e 0,7 m) consorciado com as duas gramíneas e nos cultivos solteiros das três espécies. Uma área cultivada com soja e deixada em pousio no restante do ano também foi avaliada.

Condução do experimento

O experimento foi conduzido durante dois anos consecutivos, e as avaliações realizadas durante o ciclo do sorgo na safrinha e na soja em sucessão. Os pesquisadores analisaram ainda a população e a matéria seca e o banco de sementes de plantas daninhas no solo durante os dois anos agrícolas.

Sistemas consorciados: opções sustentáveis para o Cerrado

Segundo o pesquisador Robélio Marchão, o sorgo é uma cultura que se adapta muito bem aos sistemas agrícolas do Cerrado, principalmente nas regiões de menor oferta hídrica, onde a segunda safra de milho é uma opção de alto risco.

Houve redução de mais de 87% do peso seco das plantas daninhas do primeiro para o segundo ano da pesquisa

Uma das modalidades de consorciação que podem ser usadas na região é o Sistema Santa Fé, baseado na produção integrada de culturas de grãos, especialmente milho, sorgo, milheto e arroz, com forrageiras tropicais em áreas de lavoura com solo parcial ou totalmente corrigido. Os principais objetivos do sistema são a produção de forragem para a entressafra e a produção de palhada em quantidade e qualidade para o Sistema Plantio Direto. Devido à maior facilidade de manejo, as braquiárias são as forrageiras que se destacam nesse sistema.

As duas opções de espécies de gramíneas forrageiras avaliadas na pesquisa são contrastantes quanto às características de aptidão ao Sistema Santa Fé. A Braquiária ruziziensis é a referência no consórcio pela facilidade de estabelecimento e manejo e a qualidade da palhada. Já o capim marandu é uma opção de manejo mais complexo no consórcio, com crescimento inicial mais rápido, maior potencial de produção de biomassa e consequentemente maior potencial de competição com o milho.

Houve redução de mais de 87% do peso seco das plantas daninhas do primeiro para o segundo ano da pesquisa. Apesar de os tratamentos químicos com herbicidas terem sido os mesmos nos dois anos, com a aplicação da mesma dose do produto e na mesma época, essa diminuição de um ano para o outro se deve principalmente à melhor cobertura do solo no segundo ano, resultando em maior controle físico sobre a emergência e o desenvolvimento das plantas daninhas.

Redução de 85% na infestação de plantas daninhas na safrinha

No primeiro ano, o cultivo consorciado do sorgo com braquiária ruziziensis foi capaz de reduzir em mais de 86% o banco de sementes no solo, enquanto o consórcio com capim-marandu reduziu a infestação em 38%.

No segundo ano de cultivo da soja, após dois ciclos de safrinha em sucessão, foi observada uma redução média de mais de 85% da flora emergente do banco, demostrando que todos os sistemas de cultivo em safrinha foram eficientes em reduzir a infestação de plantas daninhas.

Já os sistemas de cultivo solteiro do sorgo e o pousio (onde não houve cultivo de safrinha após a soja), sem a presença das braquiárias, foram os que apresentaram maior incidência de plantas daninhas. Apesar de o sorgo ser considerado uma cultura com alta capacidade de competição com invasoras no meio agronômico, os resultados da pesquisa demonstram a importância do consórcio na safrinha, época em que normalmente ocorrem fluxos de emergência de plantas daninhas. Normalmente as áreas sob pousio no período de safrinha apresentam elevada infestação de plantas daninhas, inclusive de espécies resistentes a herbicidas.

Outro resultado observado foi que, nos consórcios, não houve interferência das forrageiras no desenvolvimento do sorgo e vice-versa. O sorgo mostrou adaptabilidade aos capins, uma vez que a altura das plantas e o peso e o rendimento de grãos não foram afetados quando consorciados com o capim-marandu e a braquiária ruziziensis.

Além disso, a produção de matéria seca pelas forrageiras nos consórcios foi próxima à produção nos cultivos solteiros, indicando a adaptabilidade dessas gramíneas aos sistemas de Integração Lavoura-Pecuária.

Diversidade e similaridade das plantas daninhas

Foram encontradas 22 espécies de plantas daninhas na área do experimento, distribuídas em nove famílias botânicas: Asteraceae (oito espécies), Poaceae (seis), Euphorbiaceae (duas), além de uma espécie de cada uma das famílias Amaranthaceae, Commelinaceae, Convolvulaceae e Rubiaceae.

A maior similaridade de plantas daninhas na pesquisa foi observada nos cultivos solteiros de sorgo, capim-marandu e capim-ruziziensis em comparação aos cultivos consorciados. A braquiária ruziziensis antes da soja favoreceu maior redução da diversidade de plantas daninhas ao longo do tempo quando comparado ao capim-marandu.

Segundo a pesquisadora Núbia Correia, os efeitos da cobertura do solo pelo capim-marandu e pela braquiária ruziziensis no controle de plantas daninhas contribuem tanto para a redução da aplicação de defensivos como para o controle de espécies resistentes a herbicidas. Ambos são considerados eficientes competidores para as plantas daninhas, o que se deve provavelmente ao rápido crescimento e à densa cobertura de solo.

Impacto na produtividade da soja

Outro resultado da pesquisa foi que, independentemente do espaçamento do sorgo, a braquiária ruziziensis apresentou maior produção de biomassa em comparação com o capim-marandu, sendo mais eficiente na cobertura do solo na safrinha. Segundo os pesquisadores, isso refletiu em maior rendimento de grãos da soja – no cultivo em sucessão à braquiária ruziziensis no consórcio, a produtividade média foi de 3.196 kg/ha, sendo 11% superior ao cultivo em sucessão ao pousio (2.874 kg/ha) e 8% superior ao cultivo em sucessão ao capim-marandu (2.948 kg/ha). A presença da braquiária ruziziensis foi determinante para o aumento da produtividade de grãos de soja mesmo em cultivo solteiro na safrinha (3.317 kg/ha).

De modo geral, a produtividade média da soja cultivada nos tratamentos em consórcio foi 8% maior que a média das áreas em sucessão ao pousio.

Os sistemas consorciados têm maior potencial para manter a população de plantas daninhas abaixo do nível de dano econômico na soja em sucessão, uma vez que o desenvolvimento controlado da gramínea forrageira é uma estratégia para reduzir, mas não erradicar as plantas daninhas.

O que é a safrinha?

A safrinha é definida por uma curta janela de plantio, normalmente de janeiro a fevereiro, período em que as condições climáticas são mais restritivas devido ao final da estação chuvosa e a temperaturas mínimas mais baixas.

No Cerrado, a prática de cultivar o sorgo na safrinha está aumentando entre os produtores, principalmente devido à melhor adaptabilidade a regimes irregulares de chuvas em comparação com outras culturas, como o milho. As vantagens do sorgo incluem a tolerância à seca e a adaptabilidade a solos ácidos e de baixa fertilidade, características comuns dos solos da região.

O capim-marandu é comumente utilizado em sistemas de consórcio devido à grande adaptabilidade a condições de sombreamento nos estágios iniciais de crescimento e à elevada produção de matéria seca. Já a braquiária ruziziensis (foto acima) é outra forrageira bastante encontrada no Cerrado, sendo facilmente controlada e dessecada sob plantio direto para a soja em sucessão

Não basta controlar, é preciso prevenir!

A ocorrência de plantas daninhas nas áreas agrícolas após a colheita da cultura de verão é um fato comum no campo, principalmente quando o uso de herbicidas é a única estratégia de manejo, sem a preocupação com a redução do banco de sementes de plantas daninhas do solo.

Em estudo realizado na Embrapa Cerrados cerca de 70 dias após a colheita do milho de primeira safra, ao comparar uma área de milho consorciado com a forrageira Panicum maximum BRS Zuri com milho solteiro, houve redução de 68% na infestação de plantas daninhas na faixa de milho consorciado, sendo de 66% apenas para plantas de buva (Conyza sumatrensis), uma daninha problemática para as lavouras de grãos

Além disso, as espécies capim-amargoso (Digitaria insularis), poaia-branca (Richardia brasiliensis), erva-de-santa-luzia (Chamaesyce hirta), cordão-de-frade (Leonotis nepetifolia), apaga-fogo (Alternanthera tenella) e macela-branca (Gnaphalium spicatum) ocorreram somente na faixa de milho solteiro. Isso evidencia a importância da cobertura verde do solo na entressafra agrícola, no período de outono/inverno, para redução da infestação de plantas daninhas de difícil controle como buva, capim-amargoso, poaia-branca e erva-de-santa-luzia.

Considerações

A cada safra fica mais evidente que a dependência de insumos, como os herbicidas, é um fator limitador da evolução dos sistemas de produção. Existem uma série de problemas e vulnerabilidades nessa dependência. Como a variação cambial, que eleva os custos de produção e traz instabilidade ao mercado; o impacto ambiental; e o a dependência de poucas empresas detentoras desses produtos. Por outro lado, as soluções de manejo, como o consórcio, a sucessão e a rotação de culturas, são práticas que conferem elevada estabilidade do sistema produtivo e ao agroecossistema, além de reduzir o impacto das variações cambiais e das políticas de preços das empresas sobre o custo de produção. Por fim, é importante contabilizar os serviços ambientais que o manejo conservacionista presta ao agroecossistema e que a partir de 2021, pode ser convertido em valor monetário, sendo mais uma forma de renda para o produtor. Desta forma, pode-se dizer que o futuro da agricultura está nas tecnologias de manejo que promovem o equilíbrio dos sistemas de produção.

Fonte: Embrapa

 

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