Remineralizadores de solo: um novo insumo para a agricultura brasileira

Remineralizadores de solo: um novo insumo para a agricultura brasileira

Os remineralizadores de solo são uma espécie de evolução dos pós de rocha, já utilizados pelos agricultores.

O princípio do uso dos remineralizadores é o de recuperar as propriedades químicas, físicas ou biológicas do solo, através da aplicação de uma ou mais rochas finamente moídas. Na verdade, trata-se da reprodução de um processo natural de formação do solo a partir de rochas matrizes, que ocorre naturalmente ao longo de milhares de anos. Mas que no caso dos remineralizadores, passa a uma escala de tempo agronômica.

O uso de remineralizadores na agricultura é uma alternativa complementar às adubações com fertilizantes sintéticos solúveis de alta solubilidade, que inclusive pode aumentar a eficiência dessas fontes quando em combinação.

Outro aspecto importante é o potencial que os remineralizadores de solo possuem de reduzir a dependência dos fertilizantes importados, seja fornecendo nutrientes ou aumentando a eficiência das adubações. Segundo a ANDA (2020), as importações de fertilizantes em 2020 foram de praticamente 33 milhões de toneladas. Essa dependência expõe o custo de produção às oscilações de preços internacionais, podendo inclusive afetar a soberania alimentar do país.

1. NORMATIZAÇÃO

No ano de 2012, diferentes instituições formaram o Grupo de Trabalho de Normatização do Uso de Pó de Rocha (Remineralizadores) para a Agricultura. Faziam parte o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Ministério de Minas e Energia (MME), Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), Embrapa, Universidade de Brasília (MADER/UnB), Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) e Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM).

Como resultado, foi aprovada a Lei Nº 12.890, de 10 de dezembro de 2013, que altera a Lei dos fertilizantes (Lei Nº 6.894, de 16 de dezembro de 1980) por meio da inserção dos remineralizadores como categorias de insumos passível de uso na agricultura.

De acordo com essa lei, a definição de remineralizador de solo é a seguinte: todo material de origem mineral que tenha sofrido apenas redução e classificação de tamanho por processos mecânicos e que altere os índices de fertilidade do solo por meio da adição de macro e micronutrientes para as plantas, bem como promova a melhoria das propriedades físicas ou físico-químicas ou da atividade biológica do solo.

Contudo, apenas em 2016 houve a publicação pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) das Instruções Normativas IN 05 e 06 de 10 de março de 2016, que normatizaram o registro de uso e a comercialização dos remineralizadores.

Os remineralizadores devem apresentar as seguintes especificações e garantias mínimas:

  • em relação à natureza física, deve apresentar granulometria filler, pó ou farelado;
  • a soma de bases (CaO, MgO, K2O), deve ser igual ou superior a 9% em peso/peso;
  • o teor de óxido de potássio (K2O), deve ser igual ou superior a 1% em peso/peso;
  • O percentual total de sílica livre (quartzo) deve ser menor que 25%;
  • Limites máximos de contaminantes: Arsênio < 15ppm; Cádmio: < 10ppm; Mercúrio < 0,1ppm e Chumbo < 200ppm.
  • Comprovação de eficiência agronômica.

Ressalta-se a necessidade do registro no Mapa, pois apenas os remineralizadores de solo registrados apresentam a garantia de terem passado pelo processo de avaliação, que inclui caracterização e experimentação agronômica.

2. PRINCÍPIO DE USO DOS REMINERALIZADORES

Os solos de maneira geral, têm por origem as rochas (magmáticas, metamórficas ou sedimentares), que com o passar dos anos e pela atuação de diversos fatores de intemperismo (temperatura, chuva, vento, etc.), vão se decompondo até formar o solo. Dessa forma, as rochas que dão origem aos solos assumem grande importância, visto que as propriedades e características do solo dependem, em primeiro lugar, da sua composição.

Como podemos observar, o solo é naturalmente resultado da lenta decomposição das rochas. A partir desse princípio, a remineralização dos solos através do uso das rochas, parece ser um método acima de tudo lógico. Principalmente quando o processo é acelerado milhares de vezes pela seleção e moagem das rochas.

As rochas com potencial remineralizador também são conhecidas por agrominerais.

3. INSUMO REGIONAL

Os remineralizadores são considerados insumos de uso regional. Isso ocorre porque uma das suas limitações é o custo de transporte entre a mina e a área agrícola.

Quanto maior a distância, maior será o impacto do frete no valor final (característica similar ao calcário). Soma-se ainda a dose relativamente elevada, em média 1000 a 5000 kg/ha. Produtos moídos mais finamente, como filler, são mais reativos em curto e médio prazo, porém, o custo de produção de partículas muito finas aumenta proporcionalmente. Desta forma, a viabilidade econômica dos remineralizadores geralmente fica restrita à região de produção.

4. TIPOS DE ROCHAS OU AGROMINERAIS

Os principais tipos de agrominerais são os sulfatos, carbonatos, fosfatos e silicatos. Muitos são utilizados há décadas na agricultura.

Os calacários são agrominerais ricos em carbonatos já largamente utilizados na agricultura para a correção da acidez do solo, neutralização do alumínio tóxico e aumento dos teores de Ca e Mg no solo. Os sulfatos, como o gesso agrícola, são empregados para fornecer Ca e corrigir o alumínio tóxico, principalmente em camadas subsuperficiais. Já os fosfatos naturais, também muito utilizados, principalmente na produção orgânica, fornecem P e Ca. Com relação aos agrominerais silicáticos, são multinutrientes, ou seja, fornecem uma ampla gama de macro e micronutrientes, além de proporcionarem incremento da CTC (capacidade de troca de cátions) e atuarem na neutralização do alumínio tóxico, que reage com o silício.

Embora haja uma gama de agrominerais já utilizados na agricultura, o conceito de remineralizador é novo e ainda há uma baixa disponibilidade em nível nacional, apenas alguns estados possuem produtos registrados. A baixa disponibilidade e o seu uso regionalizado dificultam a disseminação do uso no país.

Na Tabela 1 podemos observar os remineralizadores já registrados no Brasil e disponíveis para a comercialização.

Tabela 1. Informações sobre os remineralizadores registrados no Mapa.

UF Município Classificação

Rocha

Nome comercial

Soma de bases

(CaO+MgO+K2O)

K2O

Sílica livre

%

BA Salvador REMINERALIZADOR granulito RMS-C01

9.9

3.9 17
GO Aparecida de Goiania REMINERALIZADOR mica xisto FMX

9.5

3.2 20
GO Aparecida de Goiania Material Secundário mica xisto Pó de micaxisto

9.6

3.3 26
GO Luziania REMINERALIZADOR calcixisto REMAX

23

2.7 20
GO Abadiania Material Secundário mica xisto Pó de micaxisto

8.9

4 25
MG Carmo do Paranaíba REMINERALIZADOR kamafugito KP-Fértil

13

4 8
MG Nova Lima REMINERALIZADOR serpentinito + fonolito

35

1

0

MG São Gotardo REMINERALIZADOR

siltito glauconítico

K-Forte

13

10 13
MG Poços de Caldas REMINERALIZADOR

fonolito

Ekosil

10

8 0
MG Poços de Caldas REMINERALIZADOR sienito

Potasil

12

12 0
MG Pratápolis FERTILIZANTE (Mg)

dunito

Dunito

40

0 0
PR Palotina REMINERALIZADOR

basalto

Renutra

13

1.01 0
PR Paula Freitas REMINERALIZADOR

microgabro + dacito

Mineralle Agro

14

1.4 10
PR Pien REMINERALIZADOR

serpentinito + filito

Silmag

26

1.2 15
SP Lencois Paulista REMINERALIZADOR diabásio

Reminer GS3

14 1.4

0

Fonte: Instituto Brasil Orgânico/Mapa.

5. ADUBAÇÃO SOLÚVEL X REMINERALIZADORES

Os remineralizadores são altamente compatíveis com os fertilizantes solúveis convencionais. Muitos grupos (produtores, técnicos ou pesquisadores) tomam uma posição de incompatibilidade de uso, pois defendem aspectos ideológicos característicos de um sistema de produção específico (orgânica, agroecológica, convencional, etc…). Entretanto, uma das grandes vantagens dos remineralizadores é justamente potencializar o efeito dos fertilizantes solúveis. Essa sinergia geralmente contribui para a diminuição das doses de fertilizantes solúveis ao longo de vários cultivos.

Os fertilizantes sintéticos solúveis possuem como principal característica a pronta disponibilidade dos nutrientes, entretanto, isso pode causar grandes perdas dependendo das condições do ambiente. Por outro lado, os remineralizadores apresentam liberação lenta dos nutrientes e tendência de incremento da CTC (capacidade de troca de cátions) do solo. Desta forma, pode-se dizer que os dois tipos de insumos atuam de forma complementar, pois a combinação dos dois pode garantir o fornecimento de nutrientes de forma imediata, a médio e longo prazo e o aumento da CTC, ocasionada pelo remineralizador, reduz a perda dos nutrientes aportados pelos fertilizantes solúveis.

Solos remineralizados e equilibrados do ponto de vista de suas características químicas, físicas e biológicas, tornam-se altamente eficientes no aproveitamento dos fertilizantes aplicados, seja na forma de remineralizador ou de fontes altamente solúveis.

Um exemplo é o efeito dos silicatos (fornecidos por rochas silicatadas), que competem com o fosfato pelos mesmos sítios de fixação nos coloides da fração argila dos solos, fato que contribui para um aumento da disponibilidade de fósforo na solução do solo, uma vez que o silicato ocupa grande parte destes sítios deixando o fósforo disponível.

O estudo realizado por CARNEIRO et al. (2016), com doses do remineralizador siltito e do superfosfato triplo, indicou que os teores de P disponível resultante da aplicação de siltito com 30% de P2O5 e do superfosfato triplo foram iguais.

6. CONSIDERAÇÕES

Os remineralizadores de solo são insumos multinutrientes e que atuam de forma complexa no sistema solo-planta. Além de serem fontes de todos os elementos essenciais às plantas, apresentam interação altamente positiva com os fertilizantes solúveis convencionais, proporcionando o aumento da sua eficiência, com redução das doses e do custo da adubação. Entretanto a disponibilidade desse insumo ainda está restrita a alguns estados, visto que o custo do transporte a longas distâncias compromete a viabilidade econômica do seu uso. Problema que deve ser superado em médio prazo tendo em vista a imensa diversidade geológica apresentada em todas as regiões brasileiras.

O panorama atual é promissor, mas a disseminação do uso dos remineralizadores depende muito da aproximação dos setores agrícola e de mineração, a fim de expandir a oferta de produtos.

BIBLIOGRAFIA E LINKS RELACIONADOS

Anais do III Congresso Brasileiro de Rochagem, 8 a 11 de novembro de 2016 / Editores: Adilson Luis Bamberg… et. al. Pelotas: Embrapa Clima Temperado; Brasília: Embrapa Cerrados; Triunfal Gráfica e Editora, 2016. 455p. Disponível em: https://www.embrapa.br/documents/1354346/26325871/Livro+Congresso+de+rochagem+Formato+Web.pdf/29be78a9-dd7a-8050-5b31-2b02c583589e

– CARNEIRO, Y.I.; SANTOS, R.A.; IEDA, J.J.C.; SERMARINI, R.A.; AZEVEDO, A.C. Disponibilidade de fósforo em função da aplicação de um remineralizador de siltito. III Congresso Brasileiro de Rochagem, Embrapa Clima Temperado; Triunfal Gráfica e Editora, p. 311-315, 2016.

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