Paraquat: entenda seu modo de ação e porque foi proibido no Brasil

Paraquat: entenda seu modo de ação e porque foi proibido no Brasil

Introdução

O Paraquat é um herbicida de contato amplamente utilizado na agricultura mundial desde os anos 60. Os principais motivos para o seu uso agrícola generalizado são o baixo custo, a grande eficácia e a ausência de efeitos poluentes cumulativos para o solo.

Entretanto, a partir dos anos 80, os pesquisadores passaram a identificar numerosos casos de intoxicação associados à exposição aguda ao Paraquat.

Embora haja diversos trabalhos científicos verificando a toxicidade à humanos e outros animais, há outros que não são conclusivos. De qualquer forma, há muitos indícios de que de fato o Paraquat pode ser um problema à saúde e que estimularam a proibição do seu uso em diversos países, inclusive no Brasil.

 

Modo de ação do herbicida

O Paraquat (1,1`-dimethyl-4,4`-bipyridinium) é um herbicida de contato não-seletivo, um sal de amônio bi-quaternário. Não existe em estado natural, sendo sintetizado.

Pertence à classe dos herbicidas não seletivos de ação não sistêmica, do grupo químico bipiridílio.

Atua na presença de luz, desidratando as partes verdes de todas as plantas com as quais entra em contato, após a aplicação a penetração ocorre quase imediatamente.

O local de ação do Paraquat é o cloroplasto contendo os sistemas fotossintéticos das plantas que absorvem a energia luminosa usada para produzir açúcares.

Este herbicida é conhecido por agir no sistema da membrana fotossintética, chamado Fotossistema I. Os elétrons livres do Fotossistema I reagem com o íon do Paraquat resultando na forma de radical livre.

O oxigênio rapidamente reconverte esse radical e nesse processo produz superóxido, altamente reativo, que ataca os ácidos graxos insaturados das membranas, rapidamente abrindo e desidratando as membranas e tecidos das células.

Geralmente é comercializado como Gramoxone®, Gramocil®, Agroquat®, Gramuron®, Paraquat®, Paraquol® e também em misturas com outros princípios ativos, como o Secamato®.

Pode ser utilizado em pulverização em: a) jato dirigido em culturas estabelecidas; b) área total antes da semeadura, no sistema de plantio direto; c) dessecação de culturas.

Possui registro no Brasil para uso de diversas culturas, como: banana, café, cana-de-açúcar, citros, maçã, seringueira, algodão, arroz, batata, couve, feijão, milho, trigo e soja.

 

Figura 1. Dessecação na pré-semeadura de inverno. Adaptado de Embrapa Notícias, dia 11/06/18. Foto: Joseani Antunes

 

Proibição no mundo

Desde a década de 1980, os riscos apresentados pelos pesticidas tornaram-se uma preocupação crescente em comunidades internacionais, especialmente nos países da União Europeia (UE).

Estudos indicam que após a exposição aguda a doses letais de Paraquat, a mortalidade pode ocorrer vários dias após a inalação, assim, foi classificado como pesticida moderadamente perigoso Classe II pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Apesar de sua alta toxidade e numerosas intoxicações, o Paraquat era registrado e vendido em cerca de 100 países desenvolvidos e em desenvolvimento em todo o mundo, incluindo os principais mercados agrícolas com alguns dos sistemas regulatórios mais exigentes como Estados Unidos, Canadá, Austrália, Japão e Nova Zelândia.

Nos Estados Unidos, o Paraquat está disponível principalmente na formulação líquida com diferentes concentrações. Foi classificado como “uso restrito”, o que significa que só pode ser usado por usuários licenciados. Na UE, o Paraquat foi proibido desde 2007.

Nos Estados Unidos, a EPA (Environmental Protection Agency) exige que a cada 15 anos os agrotóxicos devam passar por um processo de revisão do registro. Em 2020, a EPA, em processo de revisão do registro do Paraquat, propôs novas medidas para reduzir os riscos associados ao seu uso.

Essas medidas incluem: proibição da aplicação aérea (exceto dessecação de algodão); proibição da aplicação por pistola pressurizada e pulverizador costal; redução da taxa máxima de aplicação por área em algumas culturas; uso de cabines fechadas 24 horas após a aplicação em grandes áreas; entre outras medidas.

Além disso, o treinamento especializado para aplicadores certificados que usam Paraquat foi lançado no início de 2020 para garantir que o pesticida seja usado corretamente.

 

Proibição no Brasil

No ano de 2017, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) resolveu, através da RDC nº 177, 21 de setembro de 2017, pelo banimento do ingrediente ativo paraquat, mas concedeu três anos de prazo para a transição.

O prazo foi uma forma de minimizar os impactos econômicos e agronômicos da medida, considerando, principalmente, a alta eficiência do produto e o seu baixo custo.

Segundo a Anvisa, os riscos decorrentes da utilização do produto poderiam ser a mutagenicidade e a doença de Parkinson. Mas restringem-se aos trabalhadores que manipulam o produto, a população em geral não está suscetível à exposição pelo consumo de alimentos.

Mas através da RDC nº 428/2020, de 7 de outubro de 2020, a Anvisa criou um calendário específico para aplicação e autorizou o uso do Paraquat em estoque para a safra 2020/2021, conforme Tabela 1.

Tabela 1. Calendário de uso do Paraquat na safra 2020/2021.

Cultura Região Prazo máximo de uso do estoque
Soja Centro-Oeste, Sul e Sudeste Até 31 de maio de 2021
Algodão Norte, Nordeste, Sul, Sudeste, Centro-Oeste Até 28 de fevereiro de 2021
Feijão Norte, Nordeste, Sul, Sudeste, Centro-Oeste Até 31 de março de 2021
Milho Norte, Nordeste, Sul, Sudeste, Centro-Oeste Até 31 de março de 2021
Cana-de-açúcar Norte, Nordeste, Sul, Sudeste, Centro-Oeste Até 30 de abril de 2021
Café Norte, Nordeste, Sul, Sudeste, Centro-Oeste Até 31 de julho de 2021
Batata Norte, Nordeste, Sul, Sudeste, Centro-Oeste Até 31 de março de 2021
Maçã Sul, Sudeste Até 31 de outubro de 2020
Citrus Nordeste, Sul, Sudeste Até 31 de março de 2021

 

Mestre do Manejo

 

Por que foi proibido?

O Paraquat tem um dos maiores valores de toxicidade aguda entre os herbicidas comerciais. Sua dosagem letal oral (LD50) em ratos é de aproximadamente 100 mg/kg, mas em humanos é de cerca de 35 mg/g.

Portanto, o Paraquat pode resultar em toxicidade agudamente grave para todos os órgãos e resultar em morte dentro de 24 horas após a ingestão, inalação ou exposição cutânea.

De acordo com extensas informações da EPA, o Paraquat foi colocado na Categoria de Toxicidade I (a mais alta) para efeitos inalatórios agudos, na Categoria II para via oral e na Categoria III por via cutânea.

Após a absorção, o Paraquat se acumula principalmente nos pulmões e rins, porque esses dois órgãos são mais suscetíveis a lesões induzidas pelo Paraquat.

Os riscos do Paraquat à saúde humana foram estabelecidos pelo Instituto Nacional de Segurança e Saúde Ocupacional e pela Conferência Americana de Higienistas Industriais Governamentais (ACGIH). Os órgãos-alvo do Paraquat incluem olhos, pele, sistema respiratório, coração, fígado, rins e sistema gastrointestinal

Nos últimos anos, foi proposto que a exposição crônica ao Paraquat pode estar associada ao desenvolvimento da doença de Parkinson com base nos resultados de estudos experimentais em animais e evidências epidemiológicas e na similaridade quimicamente estrutural entre Paraquat e 1-metil-4-fenil- 1,2,3,6-tetrahidropiridina.

No entanto, a neurotoxicidade do Paraquat que pode estar associada à doença de Parkinson foi questionada em outros estudos, indicando a necessidade de pesquisas adicionais, a fim de avaliar os riscos potenciais à saúde humana da exposição crônica.

 

Figura 2. Imagem publicada na revista Chemosphere que relaciona o uso de agrotóxicos com a doença de Parkinson Yana et al. (2020).

 

Alternativas ao Paraquat

A partir de agora, os produtores precisarão buscar novas opções de herbicidas para substituir o Paraquat no seu sistema de produção. Algumas análises indicam que esse processo pode elevar os custos de produção uma vez que o Paraquat além de eficiente sobre plantas daninhas resistentes a outros mecanismos de ação é relativamente mais barato.

Dentre as alternativas disponíveis no mercado, o herbicida Diquat é o único com o mesmo modo de ação do Paraquat, atuando da mesma forma nos cultivos. Além dele, outra alternativa que podemos considerar é o Glufosinato.

  1. Diquat (Nome comercial: Reglone)

É um herbicida não seletivo e de ação não sistêmica, pós-emergente, que, assim como o Paraquat, pertence ao grupo químico bipiridílio.

O mecanismo de ação é a Inibição do Fotossistema I, através da captura de elétrons provenientes da fotossíntese e respiração, formando radicais livres, que resultam na formação de radicais hidroxil e oxigênio livre (singleto), os quais promovem a peroxidação dos lipídeos das membranas celulares, ocasionando vazamento do suco celular e morte do tecido.

 

Principais características dos inibidores do FSI:

– Herbicida não-seletivo e de contato.

– Inibe a fotossíntese, agindo no fotossistema I.

– Causa rápida dessecação das plantas.

– É adsorvido de forma irreversível pelos colóides do solo.

– Apresenta somente atividade foliar (pós-emergente).

 

Atualmente a grande procura pelo Diquat têm duplicado e até triplicado os preços. Além disso, a grande demanda, têm causado a escassez do produto no mercado brasileiro.

          2. Amônio-glufosinato (Nome comercial: Finale)

É um herbicida total, pós-emergente, que pertence ao grupo químico derivado de aminoácidos.

O mecanismo de ação ocorre através da inibição da enzima glutamina sintetase (GS) na rota de assimilação do nitrogênio. Com a inibição da GS ocorre acúmulo de amônia e as células acabam morrendo.

É usado como dessecante e pode ser aplicado em área total na pré-emergência de espécies cultivadas e pós-emergência de plantas daninhas e em aplicações dirigidas, com a cultura já estabelecida. Além de ser usado como dessecante em pré-colheita.

Os brotos amarelam e ressecam, porém mais lentamente do que com Paraquat. Apresenta absorção foliar com translocação reduzida. Glufosinato não é absorvido pelas raízes, por isso não apresenta atividade de solo.

 

Links relacionados

– RESOLUÇÃO – RDC Nº 177, DE 21 DE SETEMBRO DE 2017. Disponível em: https://www.in.gov.br/materia/-/asset_publisher/Kujrw0TZC2Mb/content/id/19308145/do1-2017-09-22-resolucao-rdc-n-177-de-21-de-setembro-de-2017-19308065

– RESOLUÇÃO DE DIRETORIA COLEGIADA – RDC Nº 428, DE 7 DE OUTUBRO DE 2020. Disponível em: https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/resolucao-de-diretoria-colegiada-rdc-n-428-de-7-de-outubro-de-2020-281790283

– LI Y, FANG R, LIU Z, JIANG L, ZHANG J, LI H, LIU C, LI F. The association between toxic pesticide environmental exposure and Alzheimer’s disease: A scientometric and visualization analysis. Chemosphere. 2021 Jan;263:128238. doi: https://doi.org/10.1016/j.chemosphere.2020.128238

– WEN-TIEN TSAI. A review on environmental exposure and health risks of herbicide paraquat, Toxicological & Environmental Chemistry, 2013, 95:2, 197-206. Dsiponível em: http://dx.doi.org/10.1080/02772248.2012.761999

Como funcionam os herbicidas : da biologia à aplicação / Editado por Erivelton Scherer Roman, Leandro Vargas. Passo Fundo : Gráfica Editora Berthier, 2005. 152p.: il. Disponível em: https://www.embrapa.br/documents/1355291/12492345/Como+funcionam+os+herbicidas/954b0416-031d-4764-a703-14d9b28b178e?version=1.0#:~:text=O%20caminho%20dos%20herbicidas%20%C3%A9,membrana%20plasm%C3%A1tica%20(Figura%203).

– Bula Paraquat (GRAMOXONE): https://www.syngenta.com.br/file/2026/download?token=1hBq4v0f

– Bula Diquat (REGLONE): https://www.syngenta.com.br/sites/g/files/zhg256/f/reglone_0.pdf?token=1602694065

– Bula Glufosinato (FINALE): https://documents.basf.com/bebc42cf626ba09e2b6b02c51a882c2d0126b2a2

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