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Breve histórico e a atualidade da produção de frutas brasileira

Exportação brasileiras de frutos cresceu 6% em meio à pandemia

(Curadoria Agro Insight)

Hoje trouxemos o artigo do pesquisador da Embrapa, Evaristo Eduardo de Miranda, que faz um resumo do histórico da cadeia frutícola nacional desde a origem até os números recordes da última safra.

Artigo

Um exemplo de sucesso do agronegócio brasileiro é a produção de frutas frescas. Ao longo do ano, não faltam laranjas, bananas, maçãs, mangas, uvas, abacaxis, morangos, melões, mamões e outras frutas.

Variedades melhoradas geneticamente ampliaram o calendário das colheitas. A irrigação garante a produção permanente de frutas saborosas. Em 2021, o Brasil exportou mais de 1,2 milhão de toneladas de frutas frescas, 18% a mais que o registrado em 2020. O faturamento, de mais de US$ 1 bilhão, cresceu 20%. Um recorde histórico.

Em 1563, o físico d’El Rei D. João III, Garcia d’Orta, amigo de Martim Afonso de Souza e de Luís de Camões, a partir de 30 anos de observações, de experimentos agrícolas em seu horto botânico em Goa e viagens de coleta no Oriente, publicou uma grande revisão científica dos compêndios de botânica da Antiguidade e da Idade Média. Seu livro Colóquio dos Simples, e Drogas e Coisas Medicinais da Índia e Assim de Algumas Frutas Achadas Nela (…) e Ooutras Coisas Boas para Saber já indicava as espécies selecionadas e introduzidas no Brasil. A edição foi logo traduzida para diferentes línguas, resumida, ilustrada, reproduzida e comentada.

O cultivo e o melhoramento de frutas, especiarias e madeiras eram políticas de Estado. Em 4 de novembro de 1796, a rainha D. Maria I, por carta régia, ordenou implantar um jardim botânico em Belém do Pará. Ele integraria uma rede de jardins criados de Lisboa a ilhas e arquipélagos do Atlântico.

O pedido não surpreendeu o governador da capitania, D. Francisco M. de Souza Coutinho. Ele já trabalhava na criação de um espaço botânico para permuta e aclimatação de fruteiras e especiarias. Ele executou a ordem real, designou local, funcionários e criou o Horto Público de São José.

Desde 1789, a barbárie da Revolução Francesa criara um caos sem precedentes na Guiana Francesa, uma terra sem lei, governada por sucessivos jacobinos, vivendo o bloqueio marítimo inglês, insurreições de escravos e dezenas de execuções. O governador do Grão-Pará mantinha severa vigilância na fronteira e montara uma rede de espionagem na Guiana. Seus espiões, além de informações, traziam secretamente exemplares de plantas raras, com potencial econômico para a Amazônia, do jardim botânico La Gabrielle, em Caiena, a Habitation Royale des Épiceries.

A abolição desestruturara a produção agrícola local, a ponto de a escravatura ser restabelecida na Guiana, em 1802. Com o clima conturbado em Caiena, proprietários rurais franceses migraram. Alguns pediram permissão para atravessar a fronteira e foram autorizados pelo governador do Pará. Eles foram úteis no cultivo de espécies exóticas na Amazônia e suas histórias estão bem documentadas.

Em 1798, o conde de Linhares ordenou instalar viveiros de plantas em Olinda, Salvador, São Paulo, Goiás, Vila Rica e São Luís, em carta a D. Francisco Coutinho: “Sua Majestade não só aprova (…) mas espera, que V. S. faça que esse Jardim sirva de modelo a todos os outros, que se devem estabelecer nas outras Capitanias do Brasil e que lhe dê uma extensão, que do mesmo possam ir para as outras Capitanias, as plantas exóticas e indígenas que V. S. tem cultivado”.

Entre o século 18 e início do 19, jardins estavam criados em São Paulo, Rio de Janeiro, Olinda e Vila Rica (1798). Carta deD. Maria I ao governador do Pará retrata esse objetivo: “Ordena Sua Alteza Real, que V. S. deixe disposto o modo porque se hão de ir sempre aumentando particularmente as espécies preciosas, quais árvores de pão, caneleiras, pimenteiras, cravo-da-índia, árvores de café, árvores de construção: e como desses viveiros se hão de ir distribuindo para as outras Capitanias, V. S. deve oferecê-las aos seus respectivos Governadores logo que as tenha em maior abundância”. Com a chegada da Família Real, em 1808, a rede de jardins botânicos ganhou força. A Guiana foi tomada pelas tropas joaninas e Portugal controlou o jardim de La Gabrielle. O primeiro envio de espécies ao Horto Público de Belém foi realizado em 1809, por Joseph Martin, administrador de La Gabrielle. Ele assinou a lista de plantas e as instruções de plantio: 82 espécies foram embarcadas em seis caixas. Uma nova variedade de cana-de-açúcar fez sucesso nos canaviais brasileiros e ficou conhecida como cana-caiana (ou caiena). E mudas também chegavam de outros continentes.

Por mais de três séculos, os portugueses promoveram o aumento da biodiversidade brasileira e a mudança dos hábitos alimentares, com a introdução de grande variedade de espécies vegetais: cana-de-açúcar, manga, bananas, carambola, melão, melancia, arroz, feijões, trigo, aveia, sorgo, inhame, uva, coco, figo, fruta-pão, jaca, laranjas, limão, tangerinas, tamarindo, café, cravo, canela, pimenta-do-reino, caqui, sapoti, gengibre, romã, amoras, nozes, maçãs, peras, pêssegos, pinhas, graviolas, além de hortaliças, temperos e ervas medicinais. Os animais domésticos e da pecuária são todos importados: cães, gatos, galinhas, patos, gansos, pombos, bicho-da-seda, abelhas, coelhos, bovinos, equinos, asininos, ovinos e caprinos.

O sucesso das introduções transcontinentais de espécies foi de natureza ecológica. Transportadas sem suas principais pragas nem doenças, as novas culturas cresceram melhor no Brasil. As bananas asiáticas foram cultivadas e observadas na Madeira, em Cabo Verde e Santo Tomé e Príncipe. As melhores mudas, produtivas e sadias, levadas ao Brasil. Da mesma forma, seringueira, cacau, mandioca e abacaxi tiveram um excelente desenvolvimento ao ser introduzidos na Ásia, África e Oceania, hoje seus maiores produtores.

O mercado europeu é um atestado da ausência de resíduos de pesticidas ou fungicidas nos produtos brasileiros

Hoje, a dieta do brasileiro é composta de feijão, arroz, saladas, leite e derivados, ovos, macarrão, pão, biscoitos, açúcar, carne bovina, suína e de frango. Todos produtos exóticos. As frutas mais consumidas, como laranjas, bananas, mangas e uvas, também foram introduzidas. Nas exportações, destacam-se produtos trazidos pelos portugueses, pelo comércio que estabeleceram e lhes sucedeu: carne bovina, suína, de aves, açúcar, álcool, café, soja, algodão, suco de laranja e frutas.

Intensiva em mão de obra (poda, colheita e pós-colheita), a fruticultura lidera a geração de empregos na agropecuária: cerca de 5,5 milhões de empregos diretos, segundo a Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados.

Em 2021, a manga, originária da Índia, foi a fruta mais exportada: 273 mil toneladas, aumento de 12% em relação a 2020. O faturamento da maçã cresceu 79% em relação a 2020 e o volume exportado, 58%. Foram 99 mil toneladas enviadas ao mercado internacional, principalmente à Europa e para novos países, como Colômbia, Honduras e Nicarágua. A uva aumentou em 55% o volume exportado. Mamão, limão e melão tiveram crescimentos expressivos. A recente abertura do mercado chileno para o limão taiti reduz a dependência das exportações concentradas na Europa.

A Europa representa 70% das exportações das frutas brasileiras. Exigente, o mercado europeu é um atestado da ausência de resíduos de pesticidas ou fungicidas nos produtos brasileiros. O consumidor pode ficar tranquilo. As frutas exportadas possuem certificações internacionais, como Global Gap, Rainforest Alliance, Grasp, Fair Trade, Tesco Nurture, BSCI e HACCP.

Fruta vem do latim fructus, a mesma raiz do verbo fruir. Evoca o aproveitar, desfrutar, curtir e saborear. Use o fruto. Usufrua. Graças à Coroa Portuguesa, o agronegócio pode dizer e cantar como na marchinha: “Yes, nós temos bananas!”. E mangas, melões, abacaxis, uvas, maçãs, mamões e muito mais. Como no século passado, o exuberante chapéu de frutas da luso-brasileira Carmem Miranda já prenunciava.

 

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