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Nematoides na cultura do café

Nematoides na cultura do café

(Curadoria Agro Insight)

Priscila Moreira Amaro

Engenheira Agrônoma Nematologista, CEO Nema no Campo

O café pertence à família Rubiaceae, gênero Coffea, sendo que cerca de 25 espécies do gênero são exploradas comercialmente. O Brasil é o maior produtor de café no mundo, sendo responsável por 34,9% do comércio internacional.

Dentre as principais pragas que interferem na produção do cafeeiro estão os nematoides, que historicamente têm causado danos à cultura, desde o diagnóstico de Meloidogyne exigua feito por E. Goeldi em 1887.

O objetivo desse artigo é mostrar quais as principais espécies que podem causar danos a cultura e também as ferramentas de manejo disponíveis no mercado.

1. PRINCIPAIS NEMATOIDES NA CULTURA DO CAFÉ

As espécies do gênero Meloidogyne spp. que têm se destacado como as mais disseminadas e as que causam maiores danos nas áreas cafeeiras, entre elas: Meloidogyne incognita, Meloidogyne paranaensis e Meloidogyne exigua; além dessas espécies, os nematoides das lesões, pertencentes ao gênero Pratylenchus sp., também podem atacar a cultura, sendo a espécie mais disseminada deste gênero nas áreas cafeeiras Pratylenchus brachyurus, seguida de Pratylenchus coffeae e Pratylenchus jaehni.

 

Tabela 1. Principais espécies de nematoides importantes para a cultura do café no Brasil.

Nome comum
Espécies
Nematoide das galhas M. incognita, M. paranaensis, M. exigua
Nematoide das lesões radiculares Pratylenchus brachyurus, P. Coffeae, P. jaehni.

 2. FERRAMENTAS DE MANEJO NA CULTURA DO CAFÉ

Quando pensamos em culturas perenes, a prevenção é sempre a melhor ferramenta de manejo, pois depois do nematoide ser disseminado numa área dificilmente pode-se fazer a erradicação, com o café não é diferente. É conhecido o poder de destruição dos nematoides na cultura do café, principalmente quando se trata da espécie M. paranaensis uma das mais agressivas para a cultura, causando danos de até 100%, com a morte da planta.

Confira a seguir algumas opções de manejo:

a) Manejo genético

O manejo genético é sempre uma excelente ferramenta, visto que, quando adquirimos a semente ou muda essa característica já está inserida na planta, o que não confere grandes custos no uso do manejo.

Para culturas perenes o processo de melhoramento para obtenção de novas cultivares com resistência é muito lento, atualmente existem poucas opções para a cultura do café, porém essas opções têm se destacado principalmente em áreas com histórico de infestação (Tabela 2).

É importante salientar que quando a cultura for instalada a investigação da área deve ser feita de forma preliminar, com análises nematológicas para identificar a presença de nematoides e fazer o manejo antes da implantação da cultura do café na área, em situações de reformas de áreas, também deve-se seguir o mesmo princípio, sempre diminuir ao máximo a população de nematoides a fim de, diminuir as perdas com o patógeno, que podem ser drásticas na cultura do café, conferindo perdas de até 100% em alguns casos.

Tabela 2. Cultivares ou porta-enxertos de café resistentes a nematoides.

Cultivar

Porta-enxerto

Nematoides

IPR 100 M. paranaensis
IPR 106 M. paranaensis,

M. incognita

Porta-enxerto Robusta Apoatã IAC 2258 M. exigua, M. paranaensis,

M. incognita

 b) Manejo químico

Poucos produtos possuem registro para uso na cultura do café, é uma ferramenta importante no manejo, os produtos tem um residual de ação de 30-40 dias, que auxilia na redução de nematoides nas áreas. Nesse caso os produtos são aplicados pulverizados no solo quando a cultura já está implantada e no sulco de plantio ou em faixa na instalação da cultura.

Tabela 3. Ingredientes ativos registrados como nematicidas para a cultura do café.

Ingrediente ativo

Alvo (nematoide)

Fluopiram Meloidogyne exigua
Terbufós Meloidogyne exigua
Meloidogyne incognita
Fostiazato Meloidogyne incognita
Fluensulfona Meloidogyne exigua
Meloidogyne paranaensis
Cadusafós Meloidogyne incognita
Fonte: MAPA, 2022

c) Manejo biológico

Existem muitos organismos presentes no solo que podem fazer o controle biológico natural dos nematoides, atualmente com o aumento do registro de produtos (Tabela 4) à base de fungos e bactérias com ação nematicida, é possível ter mais opções disponíveis para o manejo de nematoides, principalmente porque os produtos biológicos são registrados para o alvo, isso possibilita o uso dos mesmos em qualquer cultura que o alvo ocorra.

Para a cultura do café são observados resultados positivos na convivência da cultura com os nematoides, com o uso de biológicos, muitos dos produtos tem outros efeitos além do controle direto de nematoides, como por exemplo, a promoção de crescimento de raízes, ativação do sistema de defesa da planta, entre outros.

Tabela 4. Agentes de controle biológicos registrados.

Tipo de agente

Agente de controle

Alvo (nematoide)

Bactéria

 

Bacillus sp.

 

Meloidogyne incognita
Meloidogyne exigua
Pratylenchus brachyurus

Fungo

Trichoderma harzianum Pratylenchus brachyurus
Trichoderma koningiopsis Meloidogyne incognita
Pratylenchus brachyurus
Purpureocilium lilacinum Meloidogyne incognita
Pratylenchus brachyurus
Fonte: Mapa, 2022

d) Manejo cultural

O manejo cultural consiste nas práticas que vão do plantio a colheita, no caso de culturas perenes como café, o momento da instalação é super importante, principalmente em relação a qualidade das mudas, sempre preferir mudas certificadas em substrato estéril, acredita-se que grande parte dos nematoides disseminados nas regiões produtoras do PR, MG e SP aconteceu devido ao uso de mudas contaminadas, produzidas em solo com a presença dos nematoides.

Além disso o manejo das entrelinhas é importante, principalmente em relação as plantas daninhas, que são excelentes multiplicadoras das principais espécies de nematoides. Uma opção é cultivar alguma planta antagonista na entrelinha para evitar o aumento do nematoide e também das plantas daninhas, gramíneas é uma boa opção quando o problema da área for nematoide de galhas, porém tomar cuidado com o nematoide das lesões que é favorecido em gramíneas.

As plantas indicadas para a rotação variam de acordo com as espécies presentes na área, é importante ressaltar que a reação das plantas aos nematoides não são as mesmas.

3. CONSIDERAÇÕES

O manejo de nematoide em culturas perenes é complexo e se baseia na melhor convivência com o patógeno, garantindo assim um maior tempo de permanência da cultura na área até a perda de viabilidade econômica, em alguns casos quando o problema é identificado, a situação já está crítica, então a reforma da área é inevitável.

BIBLIOGRAFIA E LINKS RELACIONADOS

– BROWN, D.J.F.; FERRAZ, L.C.C.B. Nematologia das plantas: fundamentos e importância. Manaus: Norma Editora, 2016. 251 p. Disponível em: http://www.nematologia.com.br/files/livros/1.pdf
– FERRAZ, S.; FREITAS, L.G.; LOPES, E.A.; DIAS-ARIEIRA, C.R. Manejo Sustentável de Fitonematoides. Viçosa: Editora UFV, 2011. 304p. Disponível para compra em: https://www.editoraufv.com.br/produto/manejo-sustentavel-de-fitonematoides/1108956
– OLIVEIRA, C.M.G.; MAGRINELLI, O.R. Boletim Técnico Nematoides parasitos do cafeeiro. Instituto Biológico, n.32, 2018. Disponível em: http://www.biologico.agricultura.sp.gov.br/uploads/files/pdf/Boletins/cafe/nematoides_parasitos_cafeeiro.pdf
– AGROFIT. Nematicidas biológicos. Disponível em: http://agrofit.agricultura.gov.br/agrofit_cons/principal_agrofit_cons
– AGROFIT. Nematicidas químicos. Disponível em: http://agrofit.agricultura.gov.br/agrofit_cons/principal_agrofit_cons

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