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Mancha aureolada da soja: doença ou desequilíbrio nutricional?

Fixação biológica de nitrogênio na cultura da soja

(Curadoria Argo Insight)

A curadoria de hoje e sobre a mancha aurelada da soja. Para abordar o tema, trouxemos uma publicação dos pesquisadores da Embrapa, César de Castro, Fábio Álvares de Oliveira, Adilson de Oliveira Junior e Ruan Francisco Firmano.

Introdução

Cada safra é única, com características particulares, principalmente correlacionadas a eventos climáticos, sobre os quais pouco temos influência, ou em relação à intensidade de ataque de pragas e doenças, entre outros, que podem causar grandes impactos financeiros e psicológicos aos agricultores e mesmo, quebras de safras.

A mancha X, mancha amarela, mancha aureolada, ou qualquer sinonímia regional para o mesmo sintoma, caracteriza-se por pontuações ou manchas circulares nas folhas, de coloração amarelada, que podem coalescer e que, frequentemente, induzem ao diagnóstico de ocorrência de alguma doença ou fitotoxicidade por algum insumo agrícola, deriva de algum herbicida ou deficiência nutricional (Anomalia…, 2012; Clay, 2013), entre as possíveis causas. Vale a pena lembrar que esses sintomas não são novos e vêm ocorrendo em diferentes ambientes de produção no Brasil, há pelo menos 15 anos.

Esse tipo de mancha vem ocorrendo há muito tempo na cultura da soja, sendo observada em diversas regiões agrícolas e, de modo geral, com maior frequência em lavouras com elevado potencial de produção. Como o sintoma ocorre geralmente nas folhas de ramos secundários pouco desenvolvidos, como se fosse um ramo ladrão, principalmente de ramos do terço inferior das plantas, é mais facilmente observada quando se caminha entre as linhas da lavoura. Ou seja, essas folhas dificilmente são visualizadas à distância e portanto a identificação dos sintomas exige um exame cuidadoso.

Apesar do sintoma ocorrer em diferentes ambientes de produção, em função semelhança inicial com a mancha-alvo e muitas vezes associada a essa, alguns produtores, com receio do problema se alastrar, têm realizado aplicações de fungicidas, equivocadamente, aumentando os custos de produção (Furlani, 2022).

Em algumas situações particulares, os sintomas da mancha aureolada, caracterizados inicialmente por manchas isoladas e pequenas, podem evoluir e tomar grande parte dos folíolos, o que pode confundir um observador menos familiarizado com o fenômeno, induzindo-o a pensar em outros problemas, inclusive nutricional.

Como desvendar o problema?

Tendo em vista que o problema aparece esporádica e inesperadamente em diferentes lavouras, regiões agrícolas e tipos de solos, torna-se difícil instalar experimentos com delineamento experimental, repetições e interpretação estatística dos resultados; até porque, quais seriam os tratamentos adotados?

Então, ao longo das últimas safras e em diferentes regiões edafoclimáticas, em lavouras comerciais (on farm) e até em áreas experimentais que tinham outros propósitos, mas que, arbitrariamente, apresentavam os sintomas, foram coletadas, sistematicamente, folhas e solos de áreas com o problema.

Posteriormente, a partir dos primeiros indícios causais, foram feitos giros técnicos por diferentes regiões agrícolas, em várias safras, e coletado um grande número de amostras, principalmente, de folhas, plantas inteiras, vagens e grãos e também de solo, de maneira mais criteriosa, com objetivo de identificar as amostras, a saber:

  • Folhas com sintomas, coletadas aleatoriamente em lavouras.
  • Plantas sem e com sintomas.
  • Folhas com e sem sintomas, coletadas nas mesmas plantas e na mesma altura e posição de desenvolvimento.
  • Grãos coletados de vagens das axilas das folhas com sintomas em hastes secundárias e sem sintomas nas hastes funcionais nas mesmas plantas e na mesma altura e posição de desenvolvimento.
  • Solos das áreas com plantas apresentando o problema. A adoção dessas estratégias de levantamento e coleta de informações, principalmente nas áreas de lavouras comerciais e em diferentes ambientes de produção, possibilitou isolar efeitos e melhor entender o problema, bem como nortear uma provável explicação, e até possíveis ações futuras de pesquisa.

Resultados 

Quimicamente, as folhas com sintomas apresentam diferenças básicas em relação às demais folhas sem sintomas, de uma mesma planta, com a mesma idade e localizadas na mesma posição do ramo principal ou ramos secundários funcionais vigorosos.

As folhas sintomáticas caracterizam-se pelo baixo teor de cálcio (Ca). Além dessa grande diferença, verifica-se que os teores de potássio (K), principalmente, estão acima dos teores nas folhas sem sintomas, ou mesmo, em relação os teores que seriam normalmente encontrados nas folhas.

Os demais nutrientes concentram-se, em ordem de grandeza, dentro da faixa de suficiência e sem uma tendência constante. Vale destacar que essas folhas foram coletadas em plantas com diferentes estádios de desenvolvimento, em geral em estádios reprodutivos mais avançados (R3 ou posterior) e, portanto, não são adequadas a comparação com os padrões de teores de nutrientes da diagnose foliar coletadas no estádio R2/R3 (Oliveira Junior et al., 2020).

Se pudéssemos generalizar uma constante nutricional mais característica e determinante para a mancha aureolada em folhas de soja, teríamos:

Mancha aureolada = ƒ (↓Ca e ↑K)

De posse dessas observações, torna-se tentadoramente imaginável que a possível “solução” seja aumentar a disponibilidade de Ca às plantas, pelos métodos mais simples, inusitados ou até os mais inovadores. Contudo, essa ação somente resultará em aumento dos custos de produção, sendo inócua para eliminar o sintoma.

A ocorrência da mancha aureolada não tem distribuição regular ou expressiva nas lavouras, tampouco é totalmente compreendida pelos profissionais para que se possa indicar com segurança algum tipo de manejo ou ação tecnológica, em especial práticas de adubação, sintomas, o aparecimento da mancha em algumas folhas, e distribuídas de modo irregular na lavoura, não se enquadra no que seria esperado em um problema nutricional. Assim, espera-se que novos estudos e investigações sejam feitos para melhor explicar esse particular sintoma em folhas de soja.

Outra questão que suscita dúvidas é se os poucos grãos formados nos ramos com folhas apresentando sintomas têm teores de nutrientes diferentes dos ramos com folhas normais.

Observa-se que, mesmo que os grãos tenham sido colhidos antes da maturidade fisiológica e sabendo das diferenças na velocidade de translocação de nutrientes das folhas para os grãos, de modo geral, os teores dos nutrientes estão compatíveis com o padrão obtido na maturação plena (R8) (Fehr; Caviness, 1977).

Os menores teores de Ca nos grãos podem ser explicados pela relação fonte/dreno, entre o acúmulo crescente desse nutriente nas folhas até o final do ciclo da soja, e pelo fato do Ca ser naturalmente pouco translocado para os grãos. Portanto, quando colhidos antes da maturidade fisiológica, grãos imaturos exprimem teores de Ca aquém do esperado em grãos maduros da leguminosa.

Independentemente dos teores de nutrientes nos grãos de ramos com a mancha aureolada, esses geralmente possuem poucas vagens/grãos em relação à haste principal ou ramos funcionais vigorosos.

Como a mancha aparece geralmente em ramos débeis e em um número reduzido de plantas, distribuídas aleatoriamente nas lavouras, é de se esperar que a anomalia não cause reduções na qualidade e/ou densidade nutricional dos grãos produzidos de uma lavoura.

Outra pergunta que pode ser feita é: o solo, onde as plantas cultivadas apresentaram os referidos sintomas, é deficiente em Ca ou possui desequilíbrio entre os cátions trocáveis de caráter básico (Ca/Mg/K), ou apresenta qualquer característica determinante que indique uma relação direta e causal entre o teor do nutriente no solo e a mancha em folhas específicas de ramos do terço inferior, de algumas plantas?

Quando se observa a porcentagem da ocupação de Ca, Mg e de K na CTC (capacidade de troca catiônica), a maioria dos valores pode ser considerada normal ou característica de áreas de lavouras, sem uma relação causal de desequilíbrio que justifique a manifestação dos sintomas em algumas folhas das plantas.

Considerações

Apesar da ampla distribuição da anomalia nas principais regiões produtoras de soja no Brasil, a mesma está restrita a poucas folhas, de menor tamanho, e em algumas plantas nas lavouras. Portanto, ainda é considerado um problema menor ou de pouca importância para os agricultores.

De modo geral, as folhas com essas manchas são observadas em plantas de soja com desenvolvimento normal e em lavouras com elevado potencial produtivo.

Nas plantas que apresentam folhas com sintomas de mancha aureolada, as demais folhas localizadas em ramos funcionais têm teores adequados de cálcio e de potássio, e também, dos demais nutrientes.

Os teores de cálcio e de potássio e dos demais nutrientes no solo são, de modo geral, adequados ou dentro dos padrões normalmente encontrados em lavouras comerciais.

O manejo da acidez do solo e da adubação estão em conformidade com os padrões de manejo da fertilidade para elevadas produtividades.

Em observações de lavouras e de áreas experimentais, em diferentes ambientes de produção, não tem sido observado perdas de produtividade de soja, em relação a ocorrência de mancha aureolada.

Apesar dos diferentes nomes regionais para caracterizar o mesmo sintoma, o mais conveniente é uniformizar uma denominação comum para o sintoma deste desbalanço, sendo mancha aureolada a mais pertinente.

Finalmente, somente as folhas com mancha aureolada têm desbalanço entre os teores de cálcio e potássio.

BIBLIOGRAFIA E LINKS RELACIONADOS

CASTRO, C. de OLIVEIRA, F. A. de OLIVEIRA JUNIOR, A. de FIRMANO, R. F. Mancha aureolada da soja: doença ou um particular desequilíbrio nutricional? Londrina: Embrapa Soja, 2022, 13 p.

ANOMALIA causa confusão nas lavouras de soja do Cerrado. Jornal Dia de Campo, 11 abr. 2012. Disponível em: http://www.diadecampo.com.br/zpublisher/materias/Materia.asp?secao=Pacotes%20Tecnol%F3gicos&id=26343. Acesso em: 25 maio2022.

CAJU, J. TMG alerta sobre sintomas de mancha aureolada. Cultivar, 2 abr. 2012. Disponível em: https://revistacultivar.com.br/noticias/tmg-alertasobre-sintomas-de-mancha-aureolada. Acesso em: 25 maio 2022.

CLAY, S. A. Soybean herbicide injury. In: CLAY, D. E.; CARLSON, C. G.; CLAY, S. A.; WAGNER, L.; DENEKE, D. L.; HAY, C. H. (ed.). iGrow Soybeans: best management practices for soybean production. Brookings: South Dakota State University, 2013. cap. 32, p. 254-265.

(SDSU Extension. Agronomy, Horticulture, and Plant Science Books, 2). Disponível em: https://openprairie.sdstate.edu/plant_book/2. Acesso em:25 maio 2022.

FEHR, W. R.; CAVINESS, C. E. Stages of soybean development. Ames: Iowa State University of Science and Technology, 1977. 11 p. (Special report, 80).

FURLANI, L. Conheça a mancha-aureolada na cultura da soja. Dia Rural, 01 mar. 2022. Disponível em: https://diarural.com.br/conhecaamancha-aureolada-na-cultura-da-soja/. Acesso em: 30 maio 2022.

MARSCHNER, P. Marschner’s mineral nutrition of higher plants. 3rd ed. London: Elsevier, 2012. 651 p.

OLIVEIRA JUNIOR, A. de; CASTRO, C. de; OLIVEIRA, F. A. de; KLEPKER, D. Fertilidade do solo e avaliação do estado nutricional da soja. In: SEIXAS, C. D. S.; NEUMAIER, N.; BALBINOT JUNIOR, A. A.; KRZYZANOWSKI, F. C.; LEITE, R. M. V. B. de C. (ed.). Tecnologias de produção de soja. Londrina: Embrapa Soja, 2020. cap. 7, p. 133-184. (Embrapa Soja. Sistemas de Produção, 17).

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