Leptospirose humana em habitantes rurais

Seja bem-vindo(a) a Newsletter da Agro Insight, um espaço de artigos autorais e curadoria sobre tecnologias, sustentabilidade e gestão para o agro.

Se você ainda não é assinante, junte-se a mais de 8 mil profissionais do Agro, consultores e produtores rurais que recebem gratuitamente conteúdos de qualidade selecionados toda semana, adicionando o seu e-mail abaixo:

Por Enrico Lippi Ortolani * e Enrico Seyssel Ortolani**

Segundo os dicionários, a definição do vocábulo “clichê” é: “um conceito ou ideia estereotipada baseada na repetição, na imitação e na falta de originalidade, que se torna um chavão ou um modelo”. Muitos jovens hoje diriam “um copiar-colar!”. A palavra clichê seria apropriada para definir os ensinamentos sobre leptospirose humana proferidos por grande parte das faculdades de medicina e de veterinária. Descreve-se, nesse clichê, que “a leptospirose surge após o contato de pessoas com urina contaminada, com a bactéria do gênero Leptospira, de camundongos, ratos e ratazanas (família dos murídeos), mas pouco se fala de bovinos, suínos, cães e animais silvestres.

Quase sempre isso ocorre após enchentes, em que se acumula água e lama contaminadas com a urina de “ratos”, principalmente no ambiente urbano”. Porém, segundo recentes levantamentos do Ministério da Saúde, com dados de todos os estados brasileiros, 77% dos doentes residiam em zona urbana, mas só 49% destes contraíram a leptospirose nas cidades, e a maioria dos citadinos que pegaram a doença no meio rural não citaram o fato de ocorrer enchentes no campo. No Rio Grande do Sul os resultados se invertem e a leptospirose humana é maior (69%) na zona rural que na urbana (31 %), sendo o risco de pegar a doença oito vezes superior no campo que na cidade.

A leptospirose é causada pela bactéria do gênero Leptospira (do grego lepto= fino e comprido e do latim spira = espiral ou hélice). Já foram descritos até o momento 35 espécies e mais de 300 subtipos (sorovares) de Leptospira. Destas ao redor de 33% deles não causam doença no homem. O formato da Leptospira não é à toa, pois ela penetra na pele úmida (machucada ou integra) ou nas mucosas (boca, olhos e narinas) girando como se fosse um saca-rolhas. Essas bactérias vivem numa boa em locais úmidos e sombreados. Na água parada sobrevivem por quase um ano e por alguns meses em solos úmidos.

Dentro do organismo a Leptospira fica abrigada nos cantinhos dos rins, pois os anticorpos e antibióticos quase não a incomodam aí, podendo ser eliminadas na urina. Não precisa nem dizer que para rodar as pastagens, em especial durante o período de chuvas, é necessário usar botas de borracha, de preferência as que não estiverem furadas.

Leptospira, uma espiral fina e comprida

Leptospirose humana em habitantes rurais | DE OLHO NA MÍDIAA leptospirose é uma doença de notificação obrigatória pelo médico/hospital. Segundo dados oficiais ocorrem em torno de 13.000 casos suspeitos por ano, sendo 3.500 com confirmação laboratorial, e que leva à morte 10% dos pacientes. Os estados com maior percentual de casos são: Acre, Amapá, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Espírito Santo, Paraná e Rondônia. Porém, estima-se que para caso notificado, no Brasil, existam outros dois não registrados. Uma lástima!

Os dados internacionais caracterizam como a leptospirose humana ocorre pelo mundo afora. Nos países desenvolvidos a doença se concentra em áreas rurais, enquanto que nos mais atrasados nos grandes centros urbanos. O Brasil se encontra no meio termo, pois aos poucos aumentam os casos do campo e diminuem os das cidades.

Hemorragia e “amarelão” nos olhos 

Foto: Joseph Vinetz
Leptospirose humana em habitantes rurais • Portal DBOOs casos de campo estão melhor estudados na terra dos pampas. A maioria ocorre durante o período chuvoso. Muitos contraem a doença trabalhando na cultura do arroz irrigado, tendo contato com água contaminada por urina de murídeos, capivaras e ratões-do-banhado; na cultura do tabaco atinge lavradores que andam sem bota de borracha, pois se verificou que o pequeno grau de acidez do solo favorecia a sobrevivência da bactéria danosa; e em áreas de criação, principalmente de bovinos e ovinos, onde a doença é mais presente em pecuaristas e tratadores.

Os momentos de lida com os bovinos são os de maior risco para contrair a doença, por aumentar o contato com a urina da boiada. Atividades como ordenhar e inseminar a vacada, castrar os machos, ajudar no parto complicado e abater uma rês são os mais críticos para o pecuarista. Em seu recente trabalho com populações rurais na Nova Zelândia, Seyssel Ortolani, que também vos escreve, identificou que tratadores que lidavam com gado tiveram 20 vezes mais risco de contraírem leptospirose que outros moradores rurais que não tinham essa tarefa. Nessa lida com o gado, o melhor dos mundos seria vedar bem os curativos nos cortes de pele e trabalhar com botas, luvas e óculos de proteção. Infelizmente, pouco fazem isso!

Outra descoberta importante é que a chance de ter leptospirose nos tratadores quadruplicava se o rebanho bovino não era vacinado contra leptospirose. A propósito, recomenda-se vacinar as bezerras aos cinco meses de idade e revaciná-las anualmente no dia do início da estação de monta ou da IATF e 30 dias depois.

Também deve-se falar dos depósitos de ração. Ai minha nossa, os depósitos de ração! Alguns parecem criatórios de murídeos, com rações e montões de espigas de milho amontoadas no chão, oferecidos de bandeja como um manjar para a ratada. A manipulação desses alimentos também é uma possibilidade de pegar leptospirose, pois onde o rato defeca também urina. O ideal é manter as rações em tambores tampados para evitar a multiplicação de roedores. No caso da grande presença destes recomenda-se preparar as rações portando luvas, máscaras faciais e óculos de proteção.

Para não dizer que não falamos de “flores”, ou seja, da doença em si no homem, vamos a sua descrição. A leptospirose pode ter duas formas clínicas, um quadro leve, de duração curta, e um grave, em que o caldo entorna. Cerca de 80 % dos casos são leves, com surgimento de febre, dor-de-cabeça, dor lombar e nas panturrilhas, náuseas, vez por outra vômitos, pequenas manchas vermelhas na pele etc. Frente a tais sintomas o “doutor” suspeita que você está uma “síndrome gripal” ou uma “virose da moda”, por exemplo, dengue, Chikungunya, influenza, febre maculosa ou outras mazelas mais. O médico te recomenda um antitérmico, caldo de galinha e cama e tudo volta ao normal em até sete dias!

Para confirmar a doença só por meio de vários exames laboratoriais. Essa leve infecção deixa rastros, pois permanecem anticorpos específicos contra a Leptospira, indicando que você um dia teve contato com a bactéria. Um estudo, na terra em que o homem usa bombacha, indicou que 21,3% das pessoas pesquisadas tinham anticorpos denunciantes de uma infecção leve. Não é pouco! Porém, 20% dos casos clínicos são graves. Eles podem se manifestar de duas formas: um quadro com séria complicação nos rins e no fígado, provocando um amarelão (icterícia) nos olhos e na pele, ou a temida “síndrome de hemorragia pulmonar aguda”, onde o sangramento nos pulmões é tremendo. Este último quadro mata 50% dos pacientes, e o pior é que esta síndrome está cada vez mais frequente entre nós.

A vacinação poderia ser a melhor forma de prevenir a doença no homem, mas acontecem três problemões ligados as faltas de segurança e de ampla proteção, e a curta duração desta proteção. As vacinas tradicionais (bacterinas) causam ocasionalmente reações indesejáveis no homem, como diarreia, vomito e até morte, que por sorte não acontece nos animais.

Para oferecer total proteção a vacina deveria conter pelo menos uns 10 sorovares das leptospiras mais frequentes, pois cada espécie animal (murídeos, boi, porco etc.) transmite um ou mais sorovares de Leptospira característicos, e não existe uma vacina única que protege contra todos os subtipos. Finalmente, as bacterinas não protegem ´por mais de um a dois anos, tendo que tomar vacinas de tempos em tempos. Assim meu amigo sua proteção está nas medidas já comentadas e muito cuidado com a vida, e isto nós sabemos que você tem!

*Prof. Titular do Departamento de Clínica Médica da FMVZ -USP especializado em Clínica de Ruminantes

**Veterinário Auditor Fiscal Federal Agropecuário-MAPA / Mestre em Epidemiologia Veterinária pela Massey University, Nova Zelândia.

Se inscreva na nossa Newsletter gratuita

Espaço para parceiros do Agro aqui

Tags: leptospirose, pesquisa e desenvolvimento

Posts Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Preencha esse campo
Preencha esse campo
Digite um endereço de e-mail válido.
Você precisa concordar com os termos para prosseguir

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

abril 2024
D S T Q Q S S
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
282930  
LinkedIn
YouTube
Instagram