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Impacto das queimadas no agronegócio e no ambiente

Principais Notícias da Semana no Mundo Agro

(Curadoria Agro Insight)

O fogo é um dos distúrbios naturais mais comuns e é reconhecidamente um importante componente dos sistemas ecológicos (HOBBS & HUENNEKE 1992).

Sua ocorrência é influenciada pelas condições meteorológicas e consequentemente pelas mudanças climáticas. Mas também é consequência da ação do homem. Em uma escala global, a intensificação do efeito estufa tem provocado um maior risco de incêndios (WILLIAMS et al. 2001) enquanto a ocupação humana e práticas agrícolas tem sido a principal causa do início dessas queimadas (MISTRY 1998). Desse modo, se torna importante entender e prever possíveis efeitos desse distúrbio que afeta quase todos os biomas terrestres do mundo. Além de gerar grandes prejuízos ao agronegócio, com danos diretos (infraestrutura, equipamentos, lavouras, etc…) e indiretos (qualidade do solo e da água).

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicam que entre 2017 e 2020 houve um aumento de 42% nas queimadas no Brasil. Segundo a Pesquisa de Informações Básicas Municipais (Munic) o número de municípios com queimadas passou de 1.252 para 1.789 em quatro anos. Em 2020, os eventos climáticos mais citados pelas administrações locais foram as queimadas, com 49,4%.

Fonte: CNN Brasil

1. USO DO FOGO NA AGRICULTURA

As queimadas podem ser provocadas direta ou indiretamente pelo homem. No Brasil, o fogo é utilizado, de modo geral, diretamente para (Redin et al., 2011):

(a) limpeza de áreas tanto agrícolas como florestais;

(b) renovar pastagens, melhorando a oferta e qualidade dos alimentos;

(c) abrir novas fronteiras agrícolas;

(d) melhorar o manejo de pré-colheita da cultura da cana-de-açúcar;

(e) controlar pragas e doenças em culturas (anuais e perenes), em manejo pós-colheita, entre outras.

Embora, seja uma prática que esteja em desuso, a queimada ainda é muito utilizada em regiões de expansão agrícola, como o Cerrado.

Técnicas de prevenção e combate ao fogo na agricultura. Fonte: SENAR

2. IMPACTOS DAS QUEIMADAS NA AGRICULTURA E NO AMBIENTE

As queimadas causam impactos negativos em vários níveis, além dos danos ambientais, ocorrem danos materiais e econômicos: perda da produtividade, residências, indústrias, fechamento de aeroportos, acidentes rodoviários, interrupção das aulas, problemas de saúde.

2.1. Impactos na conservação do solo e da água

Os solos são constituídos por horizontes, que variam em suas características pedológicas (CAPECHE et al, 2004). O horizonte superficial é mais afetado pelo fogo, pois está em contato com o material em combustão – restos vegetais e plantas vivas (BARBOSA, 2001). Após a queimada o solo fica exposto ao sol (ressecamento) e a chuva (erosão), o que reduz sua capacidade produtiva.

Pesquisas mostram que, após uma queimada os teores de nutrientes como Ca, Mg, P e, K, e o pH, aumentam e sua disponibilidade para as plantas é imediata, entretanto esse afeito é curto, no máximo 3 anos (NUNES et al 2006; NUNES et al 2009; MELO et al 2006).

Isso ocorre pela deposição das cinzas na superfície do solo. Entretanto ocorre uma perda de matéria orgânica, com consequente efeito na atividade e diversidade da fauna do solo, principalmente nos primeiros centímetros de profundidade (NUNES et al 2006; NUNES et al 2009). Sem falar no efeito da erosão nos solos expostos (TAVARES et al, 2008), que compromete a capacidade de produção vegetativa do solo e provocando o assoreamento e a contaminação dos recursos hídricos. Como consequências observa-se aumento do êxodo rural, de enchentes e do custo para o tratamento da água, redução da capacidade de geração de energia em reservatórios de usinas hidroelétricas, perda de biodiversidade terrestre e aquática, entre outros impactos negativos.

Com as queimadas ocorre ainda a emissão de gases do efeito estufa, principalmente CO e CO2, além de compostos nitrogenados. Esse particulado aéreo (composto de carbono e minerais) é levado pelo vento e retorna ao solo pela gravidade e chuva. Outra parte do CO2 é absorvida pelas plantas (BARBOSA, 2001).

Alternativas que visam o uso e manejo do solo e da água de forma conservacionista, e o emprego de sistemas de produção vegetal e animal, são a solução para se abolir as queimadas (TAVARES, 2008).

2.2. Impacto das queimadas sobre a flora e a fauna

O fogo possui efeito devastador sobre a flora e a fauna dos biomas. Embora em alguns casos, como o Cerrado, as queimas sejam de ocorrência natural, as mudanças climáticas e a ação do homem, aumentaram a sua frequência, impactando no tamanho e na diversidade das populações.

Do ponto de vista ecológico, vários aspectos de uma queimada devem ser considerados. Há três tipos de fogo ou incêndio: o de copa, de maior intensidade e mais comum nas florestas, no qual o fogo se alastra de uma copa de árvore para outra; o de palha, frequente nas vegetações mais abertas, em que o estrato graminoso é o principal agente do alastramento das chamas; e o de manta, no qual a vegetação propriamente dita não é atingida, mas sim a manta ou serrapilheira acumulada sobre o solo, que se queima lentamente.

Fonte: Associação Caatinga

Os efeitos das queimadas sobre a fauna estão diretamente ligados aos efeitos sobre a vegetação, isto porque os animais precisam destas para se alimentarem e assim sobreviverem. Os insetos da ordem Collembola, por exemplo, diminuem drasticamente de abundância após o fogo. Em relação às espécies arbóreas de formigas, ocorre drástica redução das populações podendo chegar ao desaparecimento de algumas espécies. Sobre os cupins, o impacto pode ser total, como no caso de incineração de ninhos de Nasutitermes sp. Estudos indicam que quando grandes áreas são queimadas periodicamente, podem reduzir a riqueza eliminando a chance de sobrevivência de espécies de lagartos e aves (FRIZZO et al., 2011).

2.3. Monitoramento de queimadas no Brasil

a. Instituto Nacional de Meteorologia (INMET)

O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) lançou em julho de 2021 em seu Portal e Aplicativo (INMET), o Painel de Monitoramento ao Risco de Incêndio, ferramenta que monitora e divulga os locais com maior probabilidade de ocorrência de incêndios no Brasil.

A iniciativa se deu devido aos incêndios florestais e queimadas, que ocorrem normalmente de julho a setembro no Brasil central, ocasionando grande impacto ao meio ambiente, ao agronegócio e à economia brasileira. Diante disso, o Inmet estrategicamente passa a monitorar o risco de incêndio para fornecer informações e possibilitar a adoção de medidas preventivas mais eficazes e econômicas.

A ferramenta possui um mapa de monitoramento que aponta para o índice de risco ou perigo de ocorrência de incêndios em determinada região e permite:

  • Identificar as áreas com alto risco à ocorrência de incêndio;
  • Disponibilizar a informação de risco de incêndio para todos os Estados Brasileiros;
  • Contribuir para a redução das perdas na agricultura;
  • Contribuir nas ações preventivas de combate à incêndios;
  • Garantir que o produtor possa realizar sua gestão de riscos.

O Risco de Incêndio do Inmet é gerado a partir do Índice de Inflamabilidade de Nesterov¹, que calcula a possibilidade de um incêndio ocorrer a partir das condições de umidade, temperatura e chuva.

Os dados iniciais para o cálculo do risco de incêndio são obtidos através das variáveis meteorológicas registradas pelas Estações Meteorológicas Automáticas do Inmet como: Temperatura e Umidade Relativa do Ar às 13h (horário de Brasília) e precipitação (chuva) acumulada em 24 horas.

O resultado gera um índice que varia de 1 a 5, sendo atribuído o grau de risco para cada um: Perigosíssimo, Grande, Médio, Fraco e Nenhum.

Grau de risco de incêndio

  • 1 – Nenhum
  • 2 – Fraco
  • 3 – Médio
  • 4 – Grande
  • 5 – Perigosíssimo

Segundo o INMET, o índice de perigo fornece informação sobre a possibilidade de ocorrência de incêndios. Permite a análise das condições de risco possibilitando a adoção de medidas preventivas mais eficazes e econômicas.

De acordo com CARAPIÁ (2006), a adoção dos índices de risco de incêndios no Brasil iniciou-se em 1963, motivado pela ocorrência do trágico incêndio, que atingiu uma área entorno de dois milhões de hectares no estado do Paraná. Devido à dificuldade de obtenção de informações básicas, inclusive variáveis meteorológicas, os índices sugeridos naquela oportunidade foram os de Angstron e Nesterov (SOARES, 1998).

b. Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE)

O monitoramento de queimadas e incêndios florestais em imagens de satélites é particularmente útil para regiões remotas sem meios intensivos e locais de acompanhamento, condição esta que representa a situação geral do País. Para uma área com torres de observação guarnecidas continuamente e mantendo comunicação direta com brigadas de combate de fogo, os dados de satélite têm interesse marginal.

A detecção dos focos de queima de vegetação nas imagens utiliza um mesmo modo de identificação de fogo, em todas regiões, todos os dias e por anos seguidos, o que permite análises temporais e espaciais da ocorrência do fogo que seriam impossíveis de outra forma, dada a precariedade, descontinuidade e diferença de métodos nas fontes de informação locais.  Em particular, os dados do “satélite de referência” permitem a comparação entre qualquer país do Planeta.

Contudo o INPE não tem atribuições para fiscalizar, controlar e combater o uso do fogo, e nem de punir os infratores. Dentro de suas atribuições, o INPE, por meio do seu Programa Queimadas, procura gerar o maior número possível de dados relacionados ao uso do fogo na vegetação para que o governo e a sociedade se beneficiem das informações geradas.

2.4. Política pública para o controle das queimadas

A Câmara dos Deputados aprovou no dia 28/10/2021 o projeto que institui a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, disciplinando as situações nas quais será permitido seu uso e criando instâncias intergovernamentais para gerenciar respostas a incêndios nos biomas brasileiros. A matéria vai ao Senado.

Controlada ou prescrita

O substitutivo define os tipos de queimada como controlada e prescrita. A primeira é a usada para fins agrossilvipastoris em áreas determinadas; e a segunda ocorre com planejamento e controle do fogo para fins de conservação, pesquisa ou manejo dentro do plano integrado.

Se a queimada prescrita for realizada pelos órgãos responsáveis pela gestão de áreas com vegetação nativa ou plantada ela não depende da aprovação dos órgãos ambientais competentes. Mas, se for tocada por pessoas físicas ou jurídicas privadas, deverá constar de planos de manejo integrado do fogo e dependerá de autorização prévia desse órgãos.

Outra forma de praticar a queima controlada é pedir uma autorização específica, na qual o interessado deverá adotar algumas providências, como:

  • definir mão-de-obra e técnicas e equipamentos a serem utilizados;
  • preparar aceiros de largura condizente com as condições ambientais, topográficas, climáticas e com o tipo de material combustível;
  • comunicar aos vizinhos a intenção de realizar a queima controlada, informando data, hora do início e o local onde será realizada;
  • evitar a queima em períodos de temperatura mais elevada e em respeito às condições dos ventos predominantes no momento da operação; e
  • providenciar o acompanhamento de toda a operação até a extinção do fogo para adotar medidas de contenção.

O aceiro é uma faixa em que toda a vegetação é propositalmente retirada para evitar o alastramento do fogo em áreas que não se pretende atingir com a técnica.

Ao emitir a autorização para queima controlada, o órgão ambiental poderá exigir outros procedimentos dependendo da situação, devendo dar ao solicitante orientações técnicas. A emissão desse tipo de autorização poderá ser delegada a outros órgãos com capacidade comprovada.

Entretanto, o relatório proíbe a prática do fogo como método de supressão de vegetação nativa para uso alternativo do solo, exceto quando da queima controlada dos resíduos de vegetação.

O texto também prevê a possibilidade de que o órgão competente estabeleça critérios para concessão de autorização por adesão e compromisso, que também deverá seguir todos os requisitos ambientais e de segurança estabelecidos na Política.

A autorização de queima controlada pode ser dispensada para fins de capacitação em manejo integrado do fogo, desde que a área a ser queimada não ultrapasse dez hectares e a queima seja realizada de acordo com as diretrizes do comitê nacional de manejo.

Fonte: Câmara dos Deputados

2.5. Necessidade de uma ferramenta de alerta em tempo real

As instituições públicas (INMET e INPE) geram um grande volume de dados de monitoramento das queimadas, através de imagens de satélite e modelos matemáticos que produzem indicadores da probabilidade de ocorrência de incêndios. Entretanto, há uma grande carência de mecanismos de alerta.

Os mecanismos de alerta são fundamentais para que a população, especialmente os produtores rurais, sejam avisados da probabilidade de ocorrência ou da ocorrência de fato, dos incêndios. Desta forma, a capacidade de reação frente ao evento e a possibilidade de mitigação dos danos seria maior.

 REFERÊNCIAS E LINKS RELACIONADOS

CARAPIÁ, V.R., 2006, “Predição do Índice de Risco de Incêndio e Modelagem Computacional do Comportamento do Avanço da Frente do Fogo no Parque Nacional da Floresta da Tijuca”. Tese de D.Sc, COPPE/UFRJ, Rio de Janeiro,RJ, Brasil.

SOARES, R.V., 1998, “Desempenho da “Fórmula de Monte Alegre” Índice Brasileiro de Perigo de Incêndios Florestais”, Cerne 3, pp. 19-40.

HOBBS, R.J. & HUENNEKE, L.F. 1992. Disturbance, diversity, and invasion – implications for conservations. Conservation Biology, 6: 324-337.

WILLIAMS, A.A.J.; KAROLY, D.J. & TAPPER, N. 2001. The sensitivity of australian fire danger to climate change. Climatic Change, 49: 171-191.

MISTRY, J. 1998. Fire in the cerrado (savannas) of Brazil: an ecological review. Progress in Physical Geography, 22: 425-448.

FRIZZO, T.L.M.; BONIZÁRIO, C.; BORGES, M.P.; VASCONCELOS, H.L. Revisão dos efeitos do fogo sobre a fauna de formações savânicas do Brasil. Oecologia Australis, v.15, n.2, p.365-379, 2011.

REDIN, M.; DOS SANTOS, G.F.; MIGUEL, P.; DENEGA, G.L.; LUPATINI, M.; DONEDA, A.; DE SOUZA, E.L. Impactos da queima sobre atributos químicos, físicos e biológicos do solo. Ciência Florestal, Santa Maria, v.21, n.2, p.381-392, 2011.

CAPECHE, C.L.; MACEDO, J.R de.; MELO, A. da S.; dos ANJOS, L.H.C. Parâmetros Técnicos Relacionados ao Manejo e Conservação do Solo, Água e Vegetação. Perguntas e Respostas. Rio de Janeiro: CNPS 2004. 16p. (Embrapa Solos. Comunicado Técnico 28).

BARBOSA, R. I. 2001. Savanas da Amazônia: Emissão de gases do efeito estufa e material particulado pela queima e decomposição da biomassa acima do solo, sem a troca do uso da terra, em Roraima, BR. Manaus: Universidade do Amazonas, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, 236 p. Tese de Doutorado.

NUNES, L.A.P.L.; ARAÚJO FILHO, J.A. DE; MENEZES R.I. DE Q. 2006. Impacto da queimada e do pousio sobre a qualidade de um solo sob caatinga no semi-árido nordestino. Mossoró. Universidade Federal do Semi-Árido. V.19, n2. P. 200-208, abril/junho 2006.

NUNES, L. A. P. L.; ARAÚJO FILHO, J. A. de ; HOLANDA JÚNI OR.E. V.; MENEZES R. I. DE Q. 2009. Impacto da queimada e de enleiramento de resíduos orgânicos em atributos biológicos de solo sob caatinga no semi-árido nordestino. Mossoró. Universidade Federal do Semi-Árido. V.22, n1. P. 131-140, janeiro/março de 2009.

MELO. V. F.; SCHAEFER, C. E. G. R.; FONTES, E. F.; CHAGAS, A. C.; LEMOS JÚNIOR, J. B.; ANDRADE, R. P. 2006. Caracterização física, química e mineralógica de solos da colônia agrícola do Apiaú Roraima, Amazônia, sob diferentes usos e após queima. Campinas, Revista Brasileira de Ciência do Solo, 30:1039-1050, 2006.

TAVARES, S. R. de L.; MELO, A. da S.; ANDRADE, A. G. de ; ROSSI, C. Q.; CAPECHE, C. L.; BALIEIRO, F. de C.; DONAGEMMA, G. K.; CHAER, G. M.; POLIDORO, J. C.; MACEDO, J. R. de ; PRADO, R. B.; FERRAZ, R. P. D.; PIMENTA, T. S. Curso de recuperação de áreas degradadas: a visão da Ciência do Solo no contexto do diagnóstico, manejo, indicadores de monitoramento e estratégias de recuperação. Dados eletrônicos. – Rio de Janeiro: Embrapa Solos, 2008. 228 p.: il. – (Documentos / Embrapa Solos, 103).

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