Controle biológico nas culturas da soja e do milho

Controle biológico nas culturas da soja e do milho

Controle biológico nas culturas da soja e do milho

A necessidade de conservação do ambiental e da segurança da saúde de consumidores e produtores têm impulsionado o desenvolvimento e a utilização dos métodos de controle biológico de insetos-praga na agricultura.

O controle biológico é uma estratégia de controle, através da qual, faz-se a liberação, o incremento e a conservação de inimigos naturais na área de produção, impedindo que os insetos-praga atinjam níveis capazes de causar dano econômico.

Quando pensamos no agronegócio brasileiro, as culturas da soja e do milho possuem papel destacado, com grande parte da área cultivada.

Desta forma, o controle biológico empregado nessas culturas possui grande impacto na melhoria do ambiente e da saúde de produtores e consumidores.

 

SOJA

Lagartas

A lagarta-da-soja (Anticarsia gemmatalis), na maioria das regiões, é o principal inseto na cultura da soja. Atua como desfolhador do período vegetativo até o final da floração da cultura.

Ovos da lagarta-da-soja são parasitados por pelo menos cinco espécies de Hymenoptera, sendo Trichogramma pretiosum a mais prevalente.

Além do trichograma, outros parasitóides frequentes em lagarta-da-soja são o himenóptero Microcharops bimaculata, que ataca lagartas pequenas, e o díptero Patelloa similis que ataca lagartas grandes.

No caso lagarta falsa-medideira (Pseudoplusia includens), nove espécies de parasitóides foram constatados, sendo Litomastix truncatellus o mais eficiente. Ele, juntamente com fungos entomopatógenos, tem sido responsável pela manutenção dessa praga como secundária na cultura da soja.

 

Adaptado de: Simonato et a. (2014).

 

Entre os predadores de maior importância para as lagartas destacam-se os percevejos, como: Nabis sp., Geocoris sp. que se alimentam de ovos e lagartas dos primeiros ínstares, Podisus sp. que se alimenta de lagartas e os coleópteros da família Carabidae.

Os coleópteros do gênero Callida spp. e a espécie Lebia concinna, ambos carabídeos, são insetos polífagos, predadores tanto na fase de larva como na fase adulta, alimentando-se normalmente de lagartas nos primeiros instares.

Dentre os patógenos de insetos-praga, os vírus do grupo Baculovírus, possuem um grande potencial, pois são eficientes, específicos e seguros para o homem e outros animais.

O Baculovirus spodoptera apresenta especificidade em relação aos insetos-alvo, infectando e causando a morte da lagarta-do-cartucho (Spodoptera fugiperda) e da lagarta Spodoptera cosmioides.

Baculovírus é utilizado anualmente em milhões de hectares cultivados com soja no Brasil, sendo um dos melhores e maiores programas de controle biológico do mundo, desenvolvido pela Embrapa Soja.

Lagarta morta pela ação do Baculovírus.

Adaptado de Embrapa Notícias 09/05/17.Foto: Marina Torres.

 

Outro microrganismo muito eficiente que pode ser utilizado contra a lagarta da soja é Bacillus thuringiensis. Esta bactéria age rapidamente após ser ingerida pelas lagartas que param de se alimentar em um a dois dias e morrem em cerca de dois a quatro dias.

Nesse contexto, foi desenvolvido pela Embrapa e a empresa canadense Lallemand e está à disposição dos produtores a partir da safra 2020/2021, um bioinseticida para o controle biológico da lagarta-do-cartucho, trata-se do bioinseticida Crystal.

Nas pesquisas realizadas pela Embrapa, o Crystal alcançou eficiência em torno de 95 a 100%, no controle das lagartas nas lavouras.

O Crystal é um produto biológico à base da bactéria Bacillus thuringiensis e produz altas quantidades de esporos e cristais das proteínas Cry e da Vip3. Essas proteínas são muito eficientes no controle das lagartas.

Bioinseticida à base da bactéria Bacillus thuringiensis.

Adaptado de: Embrapa Notícias 24/08/20. Foto: Promoção Embrapa e Lallemand.

 

Nas culturas de soja do centro-sul do Brasil, o fungo Metarhizium rileyi pode causar verdadeiras epizootias em populações de lagarta-da-soja e falsa-medideira (Chrysodeixis includens).

A ação de M. rileyi pode impedir que a população dessas lagartas atinja o nível de dano econômico, sendo desnecessária a aplicação de inseticidas.

Como a disseminação do fungo na lavoura é muito rápida e intensa, a fonte de inoculo permanece por um longo tempo.

 

Percevejos fitófagos

Estão entre as principais pragas da cultura da soja, as ninfas e adultos dos percevejos inserem o estilete nas sementes durante a alimentação, causando danos irreversíveis.  O mais importante é o percevejo-marrom (Euschistus heros).

Ovos de percevejos são hospedeiros de muitas espécies de parasitoides, como Trissolcus basalis e Telenomus podisi, que se destacam pela eficiência e abundância na soja.

O parasitismo durante a safra de soja pode variar de 30% a 70%, sendo os ovos de E. heros os mais parasitados, especialmente por T. podisi (MOSCARDI et al., 2006).

No caso do percevejo adulto o principal parasitoide responsável pelo controle do percevejo-marrom é o Hexacladia smithii, que pode atingir até 91,1% de controle.

Segundo trabalho de GODOY et al. (2007), o parasitóide T. podisi, quando liberado em lavouras de soja na sua fase reprodutiva, controla eficientemente o percevejo E. heros.

O microhimenóptero Hexacladia smithi é o principal parasitóide em adultos de E. heros, que normalmente ocorre em populações elevadas entre dezembro e janeiro, reduzindo drasticamente a capacidade reprodutiva das fêmeas do percevejo.

 

MILHO

 

Lagartas

As principais lagartas-praga na cultura do milho são: a lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda), lagarta da espiga (Helicoverpa zea) e Helicoverpa armígera.

A lagarta-do-cartucho é considerada na maioria das regiões a principal praga da cultura do milho, com danos severos tanto na parte aérea como na espiga.

Os principais agentes de controle biológico das lagartas na cultura do milho são: o baculovírus, Bacillus thuringiensis e o parasitoide de ovos Trichogramma.

Os baculovírus são responsáveis pelo rompimento do tegumento da lagarta imediatamente após a sua morte.

Uma vantagem muito importante é que, de um modo geral, os baculovírus são compatíveis com a aplicação de inseticidas químicos no mesmo tanque.

O Bacillus thuringiensis é uma bactéria que forma cristais proteicos com propriedades inseticidas específicas, podendo ter atividade sobre vários artrópodes, incluindo lepidópteros, dípteros, coleópteros, himenópteros, homópteros e ácaros.

Conforme relatado anteriormente, na cultura da soja, o bioinseticida Crystal, à base de Bacillus thuringiensis, também está disponível para a cultura do milho.

No milho, o trichograma, vespa que parasita os ovos e impede a eclosão das larvas, também é um excelente parasitoide para a redução de dos danos causados pela lagarta-do-cartucho.

Atualmente, já são relativamente comuns as biofábricas que produzem e vendem o trichograma em escala comercial.

Cartela com vespas Trichogramma. Adaptado de: Embrapa Notícias 14/08/14. Foto: Clenio Araujo

 

Também é bem conhecida a eficiência da tesourinha (Doru luteipes) no controle da lagarta-do-cartucho. Trata-se de um inseto predador tanto de ovos como de larvas pequenas. Ela coloca ovos no cartucho da planta e quando nascem as formas jovens, estas, juntamente com os adultos, fazem o controle biológico da praga.

Em um trabalho bastante atual, SOUZA et al. (2020), avaliaram ainda a capacidade predatória de Orius insidiosus (percevejo predador) e Doru luteipes (tesourinha predadora) sobre ovos e lagartas da lagarta-do-cartucho resistente ou não à proteína Cry1F expressa no milho Bt.

Os autores concluíram que O. insidiosus e D. luteipes não percebem a presença da proteína Cry1F na presa S. frugiperda, o que pode contribuir para o uso integrado de milho GM e controle biológico em programas de manejo integrado e manejo de resistência de pragas.

Verificaram ainda, que a combinação do milho Bt com os predadores O. insidiosus e D. luteipes reduz as injúrias causadas por S. frugiperda, mesmo quando as lagartas são resistentes ao gene Bt.

Percevejos

O percevejo-castanho (Scaptocoris castanea e Atarsocoris brachiariae) alimentam-se da raiz do milho e diversas outras culturas.

Uma das alternativas de controle biológico para essa praga é o fungo Metarhizium anisopliae.

percevejo-castanho (Scaptocoris castanea).

Foto: Arquivo Embrapa Soja

 

Cigarrinhas

As plantas de milho são suscetíveis a doenças viróticas transmitidas pela cigarrinha-do-milho (Dalbulus maidis) e as estratégias recomendadas de controle, com inseticidas sintéticos e variedades de milho resistentes não têm demonstrado sucesso.

Mas segundo RIBEIRO (2018), o uso do fungo Metarhizium anisopliae, como alternativa de controle de D. maidis em plantios de milho, apresentou semelhante eficiência de controle ao inseticida Tiametoxam+Lambdacialotrina.

Outras alternativas de controle biológico para a cigarrinha do milho são outro fungo entomopatogênico, o Beauveria bassiana, e os parasitoides de ovos, Anagrus breviphragma e Oligosita spp..

 

CONSIDERAÇÕES

O Manejo Integrado de Pragas (MIP) no Brasil tem impulsionado o desenvolvimento e o uso do controle biológico nas grandes culturas, como a soja e o milho.

Com base na identificação e no conhecimento da biologia das pragas e seus inimigos naturais e no seu monitoramento, promoveu-se uma racionalização no controle de pragas, reduzindo substancialmente o uso de inseticidas químicos e mudando o perfil desses produtos, favorecendo a multiplicação dos inimigos naturais.

Nesse processo, o controle biológico contribui, diminuindo ainda mais a utilização dos inseticidas químicos.

A expansão do controle biológico, através da produção de parasitóides in vitro, e a viabilização econômica da produção comercial do baculovírus e Bacillus thuringiensis em laboratórios e biofábricas, têm contribuído para a construção de sistemas de produção mais sustentáveis.

Não sistemas sustentáveis apenas do ponto de vista ambiental, mas também econômico. Além disso, possibilitam a produção de alimentos com maior qualidade, especialmente do ponto de vista da segurança aos consumidores e produtores, com produtos com menor risco de contaminação.

Nesse contexto, a tendência é que o controle biológico seja cada vez mais protagonista nos sistemas de produção.

 

Links relacionados:

MOSCARDI, F.; CORRÊA-FERREIRA, B.S.; PARRA, J.R.P. Controle biológico de pragas da soja. Visão agrícola Nº5, p. 89-92, 2006. Disponível em: https://www.esalq.usp.br/visaoagricola/sites/default/files/va05-fitossanidade03.pdf

GODOY, K.B.; ÁVILA, C.J.; ARCE, C.C.M. Controle biológico de percevejos fitófagos da soja na região de Dourados, MS. Dourados: Embrapa Agropecuária Oeste, 27p., 2007. (Boletim de Pesquisa e Desenvolvimento/Embrapa Agropecuária Oeste). Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/254791/1/BP200740.pdf

CRUZ, I. Lagarta-do-cartucho: o principal inimigo do milho. Cultivar, Pelotas, ano 3, n 35, dez. 2001. Disponível em: https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/58154/1/Lagarta-cartucho.pdf

RIBEIRO, J.M. Eficiência de controle da cigarrinha-do-milho por dois fungos entomopatógenos, associados com o indutor de resistência K2SiO3, em plantas de Zea mays (var. saccharata) sob condições de campo.  Instituto Federal Goiano, Campus Urutaí, 2019. 31 p. Disponível em: https://sistemas.ifgoiano.edu.br/sgcursos/uploads/anexos_1/2019-12-03-12-24-39Juliano%20Milhomem%20Ribeiro.pdf

SOUZA, C.S.F., SILVEIRA, L.C.P., SOUZA, B.H.S., NASCIMENTO, P.T., DAMASCENO, N.C.R., MENDES, S.M. Efficiency of biological control for fall armyworm resistant to the protein Cry1F. Braz. J. Biol. https://doi.org/10.1590/1519-6984.224774.

SIMONATO, J.; GRIGOLLI, J.F.J.; OLIVEIRA, H.N. de. Controle biológico de insetos-praga na soja. In: LOURENÇÃO, A. L. F.; GRIGOLLI, J. F. J.; MELOTTO, A. M.; PITOL, C.; GITTI, D. de C.; ROSCOE, R. (Ed.). Tecnologia e produção: Soja 2013/2014. Maracaju, MS: Fundação MS, 2014. Disponível em: https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/102097/1/cap.-8.pdf

 

 

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2 Comentários. Deixe novo

  • Avatar
    Luiz Antônio do Prado Xavier
    31 de março de 2021 15:59

    A segurança nutricional é hoje foco de praticamente todas as empresas. Integrar o controle biológico neste processo coloca o produtor no ponto mais alto de tecnologia. Solos, materiais, épocas de plantio já são de conhecimento geral. Produtos orgânicos estão cada vez mais na mesa dos brasileiros. Daí esta integração química/biológica é tudo de bom. Parabéns pela publicação.
    Luiz Antônio, Agrônomo, Araguari, MG.

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