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Controle biológico em hortaliças

Controle biológico em hortaliças

Introdução

O atual desafio da produção e controle biológico de hortaliças é manter a produtividade dos cultivos e ao mesmo tempo melhorar a qualidade e a sanidade dos alimentos,  sem comprometer a sustentabilidade do ecossistema agrícola.

Para que isso seja possível, o controle biológico de pragas de hortaliças surge como uma das principais estratégias.

O grupo das hortaliças envolve mais de sessenta espécies vegetais cultivadas em território nacional, cada qual com o seu complexo de pragas, o que representa numerosas possibilidades de utilizar o controle biológico.

No Brasil, a biodiversidade e o clima tropical favorecem tanto a ocorrência quanto o uso prático de inimigos naturais.

O controle biológico usa inimigos naturais que possam causar a mortalidade da praga, ao ponto de cantarolá-la e que possam ao mesmo tempo ser manipulados pelo homem.

Controle biológico conservativo

controle biológico

O uso dos inimigos naturais é conhecido como controle biológico e se baseia na regulação natural das populações de insetos e ácaros que se alimentam de plantas. Assim, o homem pode tirar proveito deste fato favorecendo os inimigos naturais já existentes no agroecossistema, por meio de práticas como:

  1. a) uso de barreiras vivas e plantas repelentes contra pragas;
  2. b) manutenção de plantas que produzem flores na bordadura do cultivo, visto que estas fornecem alimento complementar;
  3. c) refúgio e local de reprodução para predadores e parasitóides das pragas;
  4. d) manutenção do solo recoberto por vegetação ou de cobertura morta (palhada);
  5. e) plantio direto ou cultivo mínimo;
  6. f) policultivos (consórcios, faixas de cultivo);
  7. g) preservação das matas nativas próximas à cultura, as quais atuam como ilhas de reposição de inimigos naturais;
  8. h) uso de produtos alternativos de baixo impacto sobre inimigos naturais.

Controle biológico aumentativo

Consiste na liberação de inimigos naturais para controle da praga-alvo. Vários inimigos naturais (predadores, parasitóides e entomopatógenos) são usados e comercializados no Brasil em programas de controle biológico de pragas agrícolas.

A bactéria entomopatogênica Bacillus thuringiensis é o agente de controle biológico mais utilizado na agricultura, cujos produtos comerciais são registrados para o controle de lagartas em diversas hortaliças.

Também pode-se adquirir no mercado e fazer a liberação sistemática de vespinhas parasitóides, como o Trichogramma spp. que atacam ovos de mariposas e borboletas.

 Inimigos naturais

Controle biológico

 

Inimigos naturais são organismos que, para completarem seu desenvolvimento, se alimentam das pragas.

Os inimigos naturais mais conhecidos são os predadores como as joaninhas, vespas e bichos lixeiros, que se alimentam de diversas pragas das hortaliças. Os parasitóides pertencem à outra categoria, em geral, são vespas diminutas que se desenvolvem no interior ou sobre o corpo da praga. Também existem os micro-organismos, como fungos, bactérias, vírus e nematóides que ocasionam doenças e matam as pragas, quando estas alcançam grandes populações no cultivo.

MOSCA-BRANCA (Bemisia tabaci) biótipo B

São hospedeiros, as brássicas (brócolos, couve-flor, repolho), cucurbitáceas (abobrinha, melão, chuchu, melancia, pepino), leguminosas (feijão e feijão-de-vagem) e solanáceas (berinjela, fumo, pimenta, tomate, pimentão).

Ocasiona danos diretos, devido à sucção contínua de seiva e da ação toxicogênica, sendo responsável por redução do vigor e reprodutivo do tomateiro. Além disso, excretam o excesso da seiva na forma de gotículas de substâncias adocicadas na superfície das folhas e dos frutos, favorecendo o desenvolvimento da fumagina.

As pesquisas sobre controle biológico da mosca-branca na cultura do tomate no Brasil ainda não resultaram em uma tecnologia definitiva. Mas, foi constatada a ocorrência do parasitóide Encarsia lutea, dos predadores Cyclonela sp., Orius sp., Chrysoperla sp. e ácaros da família Phytoseiidae.

Nas áreas em que as mudas serão transplantadas, deve-se atentar para que não haja plantas daninhas hospedeiras da mosca-branca, como amendoim-bravo (Euphorbia heterophylla), erva-de-santa-maria (Chenopodium ambrosioides), fedegoso (Senna obtusifolia), guanxuma-rasteira (Sida urens), maria-pretinha (Solanum americanum), mentruz (Lepidium virginicum), perpétuabrava (Gomphrena celosioides) e poaia-do-cerrado (Richardia scabra).

 TRIPES

No Brasil, já foram identificadas 545 espécies de tripes, das quais em torno de 24 espécies são consideradas causadoras de danos à horticultura. Algumas culturas atacadas, são o feijão-caupi, berinjela, alface, melão, fumo, tomate e melancia.

Como resultado do ataque, as folhas apresentam alteração em sua consistência, ficando coriáceas e quebradiças e também podem causar o abortamento de flores. Nos frutos, o ataque pode causar abortamento, deformação ou ferimentos que alterarão a qualidade final. Além de serem transmissores de viroses em culturas de importância econômica na horticultura.

O controle biológico pode ser realizado por meio de larvas de Syrphidae, de larvas de Crisopideos (bicho-lixeiro), de alguns coleópteros (joaninhas), de tripes predadores dos gêneros Scolothrips e Franklinothrips e de percevejos do gênero Orius.

O controle biológico, para conseguir eficiência, deve ser realizado em baixas populações das pragas, associado a inseticidas seletivos.

Figura 1. Métodos de monitoramento de tripes na cultura da alface: (A) captura de adultos em armadilhas adesivas de coloração amarela e azul; (B) inspeção direta na planta. Fotos: Mirtes Freitas Lima

PULGÕES

Os pulgões são pragas polífagas, ou seja, atacam diversas famílias de plantas, como Cucurbitaceae, Malvaceae, Solanaceae, Brassicaceae e Rutaceae.

O pulgão é uma das principais pragas que atacam a cultura da couve, trazendo perdas significativas, principalmente em folhas e brotos. Sugam a seiva floemática, provocando deformidade nos brotos e reduzindo a capacidade fotossintética. Além de transmitir mais de 100 espécies de vírus fitopatogênicos.

Os parasitóides de pulgões com maior importância são os do gênero Aphelinus. As joaninhas são importantes predadores dos pulgões, a joaninha-asiática Harmonia axyridis é considerada uma predadora voraz, com capacidade de comer até 100 pulgões por dia.

MOSCA-MINADORA (Liriomyza spp.)

 No Brasil, três espécies (L. huidobrensis, L. sativae e L. trifolii) ocorrem naturalmente em quase todos os estados, atacando mais de 25 famílias de plantas.

É na fase larval que ocorrem os danos associados a essa praga. As larvas formam galerias irregulares, translúcidas de coloração amarelada nas folhas, fazendo que a folha seque, reduzindo a capacidade fotossintética da planta, o que afeta diretamente a qualidade dos frutos.

Existem inúmeros inimigos naturais capazes de regular as espécies de mosca-minadora, como os parasitoides Opius sp., Diglyphus insularis, Anagrus sp., capazes de parasitar os insetos no interior da folha.

Espécies predadoras também são eficientes no controle de larvas de mosca-minadora. Entre os predadores é possível destacar espécies de bicho-lixeiro, as tesourinhas, vespas, formigas e besouros que se alimentam de larvas e/ou pupas da mosca-minadora.

LAGARTA-ROSCA (Agrotis ipsilon)

É uma praga polífaga, atacando diversas olerícolas. Os danos causados por essa praga ocorrem quando ela se encontra no período larval, em que lagartas cortam as plantas rente ao solo.

As lagartas podem alimentar-se dos bulbos da cebola no campo, em períodos de seca prolongada, favorecendo seu apodrecimento durante o armazenamento.

Entre alguns organismos que podem ser citados no controle biológico, pode-se mencionar o parasitoides Trichogramma.

Os microrganismos utilizados no controle biológico como nematoides entomopatogênicos, bactérias, fungos e vírus são vantajosos devido à várias características, como especificidade e a seletividade, alta capacidade de multiplicação e dispersão no ambiente.

Os nematoides entomopatogênicos são uma alternativa para o controle de pragas que vivem no solo sem efeitos negativos sobre inimigos naturais e sem contaminação do meio ambiente (Figura 2).

Figura 2. Ciclo biológico dos nematóides entomopatogênicos. Adaptado de LEITE (2020).

Dentre o mercado de bioinseticidas a base de microrganismos o mais utilizados são produtos à base da bactéria, como o Bacillus thurigiensis (Bt).

VAQUINHA (Diabrotica speciosa)

É um coleóptero fitófago, com ocorrência em todo o Brasil.

No caso das cucurbitáceas, assume grande importância econômica, por danificar as plantas desde sua germinação até a época de colheita dos frutos. Os adultos consomem as folhas da abóbora, da abobrinha, da moranga e da melancia, deixando orifícios típicos de seu ataque, além de atuarem como vetores de algumas viroses.

No feijão-de-vagem, os danos mais severos são causados pelos adultos, já que ocorrem quando as plantas iniciam a emissão de folhas primárias, fase caracterizada pela pequena disponibilidade foliar.

Atualmente, o controle biológico da D. speciosa pode ser realizado através de um produto comercial à base do fungo Beauveria bassiana.

ÁCAROS

Os principais ácaros-praga nas hortaliças são o Ácaro-do-bronzeamento (Aculops lycopersici), o Ácaro-branco (Polyphagotarsonemus latus) e o Ácaro-rajado (Tetranhychus urticae).

Em geral, o ataque é concentrado nas folhas dos ponteiros, ficando as folhas com as bordas dos folíolos enrolados para cima, apresentando coloração verde-escura brilhante. Posteriormente, a face inferior do folíolo torna-se bronzeada, pela morte dos tecidos, e as folhas ficam ressecadas e quebradiças.

Os ácaros da espécie Tetranhychus urticae podem ser controlados biologicamente usando os ácaros predadores Phytoseiulus persimilis ou Neoseiulus californicus.

O ácaro P. macropilis é especialista quanto ao hábito de alimentar-se exclusivamente de ácaros pertencentes ao gênero Tetranychus. Os ácaros especialistas reproduzem-se mais rapidamente do que os generalistas quando a disponibilidade de alimento é elevada.

Já o N. californicus, que é uma espécie generalista, apesar de alimentar-se preferencialmente do ácaro rajado.

Os fungos Beauveria bassiana e Metarhizium anisopliae possuem um grande potencial como agentes para o controle de ácaros-praga.

 TRAÇA-DO-TOMATEIRO (Tuta absoluta)

A traça forma galerias irregulares e transparentes nas folhas para alimentarem-se, causando forte desidratação. Também atacam as brotações apicais, o caule e os frutos, tornando-os impróprios para a comercialização.

No Brasil, podem ser encontradas doze espécies de parasitoides registrados, como os das famílias Bethylidae, Braconidae, Mymaridae e Trichogrammatidae, além de predadores como vespas, formigas e percevejos das famílias Reduviidae, Pentatomidae e Nabidae.

Grande parte do controle biológico se dá pela liberação semanal nas plantações do parasitoide T. pretiosum associada à aplicação do inseticida biológico contendo Bacillus thuringiensis.

Para que ocorra a correta utilização de T. pretiosum, a liberação deste parasitoide deve ser realizada preventivamente, ou seja, antes de ser verificada a presença da traça na área de produção (Figura 3).

 

Figura 3. Diagrama do ciclo de vida do parasitóide de ovos Trichogramma pretiosum. Fêmea adulta fazendo postura em ovos da traça-do-tomateiro; ovo de T. pretiosum é colocado dentro do ovo da traça-do-tomateiro; desenvolvimento larval de T. pretiosum no hospedeiro e parasitóide adulto emergindo do ovo da traça-do-tomateiro. Adaptado de MEDEIROS et al. (2005).

BROCA-DAS-CUCU RBITÁCEAS (Diaphania nitidalis e D. hyalinata)

As duas espécies causam danos semelhantes aos botões florais e frutos das cucurbitáceas. Mas, D. hyalinata também causa danos consideráveis aos talos das folhas e hastes das plantas, ocasião em que murcham e secam. Por serem mais tenros, o pepino, o melão e a abobrinha italiana são mais atacados em sua fase vegetativa do que outras plantas, como o chuchu e a moranga. Entretanto, é broqueando os frutos que estas pragas causam os maiores danos às cucurbitáceas, havendo casos de perda total da produção.

Dentre as possibilidades de controle biológico, há o uso dos inimigos naturais, como os pertencentes às espécies Crysoperla spp. e a formiga do gênero Paratrechina como predadores de ovos, Trichogramma pretiosum como parasita de ovos e, quando em fase de pupa, o uso de L. coecus.

Outra alternativa é o uso de Bacillus thuringiensis em pulverizações dirigidas às flores e frutos novos, que tem dado resultados promissores.

CIGARRINHA-VERDE (Empoasca sp.)

A cigarrinha-verde é uma praga de elevada ocorrência nos cultivos de feijão no Brasil.

Os sintomas do ataque são semelhantes às viroses, provocando o atrofiamento, além de atuar como vetor de agentes fitopatogênicos.

A cigarrinha é encontrada na face inferior do folíolo e tanto adultos como ninfas se alimentam sugando seiva, causando o ‘enfezamento’ da planta, que fica com as bordas dos folíolos voltados para baixo.

O controle biológico desta importante praga ainda é pouco efetivo. Mas estudos atuais, indicam que aplicações dos fungos entomopatogênicos, Lecanicillium lecanii e Metarhizium anisopliae tiveram efeito positivo no controle de E. kraemeri em feijão.

 CONSIDERAÇÕES

O controle biológico tem sido largamente utilizado em cultivos de hortaliças, tanto à campo quanto em cultivo protegido.

São inúmeras as vantagens do controle biológico, mas a principal é a possibilidade de produzir alimentos sem resíduos de agrotóxicos. Esse aspecto é particularmente importante no caso das hortaliças, pois grande parte pode ser consumida in natura.

Além disso, o controle biológico de fato é eficiente quando conduzido adequadamente. Um exemplo disso é o trabalho de MORALES-SOTO et al. (2019), que avaliaram três espécies de fungos entomopatogênicos (Lecanicillium lecanii, Trichoderma harzianum e Metarhizium anisopliae) no controle da cigarrinha-verde e, verificaram que dois desses fungos foram altamente eficientes (L. lecanii e M. anisopliae) (Figura 1).

Figura 2. Efeito da aplicação de três fungos entomopatogênicos e enxofre no controle da população de Empoasca kraemeri em feijão. Adaptado de MORALES-SOTO et al. (2019).

Links relacionados

– MORALES-SOTO, Arianna et al . Effect of three beneficial fungi and Sulfur on harmful insects in the common bean crop (Phaseolus vulgaris L). cultrop,  La Habana ,  v. 40, n. 3,  e01,  Sept.  2019 . Disponível em: http://scielo.sld.cu/pdf/ctr/v40n3/en_1819-4087-ctr-40-03-e01.pdf

– MICHEREFF FILHO, M.; RESENDE, F.V.; VIDAL, M.C.; GUIMARAES, J.A. MOURA, A.P.; da SILVA, P.S.; REYES, C.P. Manejo de pragas em hortaliças durante a transição agroecológica. Brasília, DF: Embrapa Hortaliças, 2013. 16 p. (Embrapa Hortaliças. Circular técnica, 119). Disponível em: https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/957535/manejo-de-pragas-em-hortalicas-durante-a-transicao-agroecologica

– MEDEIROS, M. A. de. O controle biológico de insetos-praga e sua aplicação em cultivos de hortaliças. Brasilia: EMBRAPA-CNPH, 1997. (EMBRAPA-CNPH. Circular Técnica da EMBRAPA Hortaliças, 8). Disponível em: https://www.embrapa.br/agroindustria-de-alimentos/busca-de-publicacoes/-/publicacao/758441/o-controle-biologico-de-insetos-praga-e-sua-aplicacao-em-cultivos-de-hortalicas

– MEDEIROS, M. A. de. Controle biológico da traça-do-tomateiro em sistema orgânico de produção. Brasília : Embrapa Hortaliças, 2009. 18 p. – (Boletim de pesquisa e desenvolvimento). Disponível em: https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/782930/controle-biologico-da-traca-do-tomateiro-em-sistema-organico-de-producao

– WATANABE, M.A.; MELO, L.A.S. Controle biológico de pragas de hortaliças. Embrapa Meio Ambiente. Jaguariuna, 10p. 2006. Disponível em: https://www.bibliotecaagptea.org.br/agricultura/defesa/livros/CONTROLE%20BIOLOGICO%20DE%20PRAGAS%20EM%20HORTALICAS%20-%20EMBRAPA.pdf

– MEDEIROS, M.A. de; VILLAS BÔAS, G.L.; CARRIJO, O.A.; MAKISHIMA, N.; VILELA, N.J. Manejo integrado da traça-do-tomateiro em ambiente protegido. Brasília, DF: Embrapa Hortaliças, 2005.10p. (Embrapa Hortaliças. Circular Técnica, 36). Disponível em: https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/779134/manejo-integrado-da-traca-do-tomateiro-em-ambiente-protegido

– LEITE l.G. Nematóides contra insetos. Tecnologia Sustentável, Instituto Biológico. 15p., 2020. Disponível em: http://www.biologico.sp.gov.br/uploads/files/pdf/tecnologia_sustentavel/nematoides.pdf

 

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