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Contratos Futuros de Milho, Precificação Regional e Gestão de Riscos

Fatores que podem alavancar o preço do milho em 2021

(Curadoria Agro Insight)

Na curadoria de hoje, trouxemos um artigo de opinião do pesquisador responsável pelas equipes de Grãos, Fibras e Amidos do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), Lucilio Rogerio Aparecido Alves, publicado no dia 26 de julho de 2021.

Neste artigo, Alves aborda o funcionamento do mercado futuro do milho e os fatores que influenciam nas transações e no preço. O autor ainda cita o exemplo das parcerias na produção de semente de milho, que mostra como o mercado efetivamente considera os preços da Bolsa no Brasil para a formação de preços em diferentes regiões do Brasil. Além disso, destaca o uso da biotecnologia como ferramenta para melhorar a produtividade do milho brasileiro, independentemente do período em que é cultivado.

Alta liquidez no mercado futuro de milho brasileiro

A formação dos preços do milho tem como base principal as condições de oferta e de demanda domésticas e, muitas vezes, de oferta e demanda regionais. Isso leva, como em momentos recentes, a descolamentos dos preços internos em relação aos internacionais no curto prazo – apesar de, no longo prazo, as cotações serem cointegradas. Em parte, isso pode ser atribuído ao fato de que as transações de milho entre países são relativamente modestas: equivalentes a pouco mais de 15% da produção, contra em torno de 2/3 da produção mundial no caso da soja e derivados, por exemplo.

Foi diante deste contexto que, em 2008, a Bolsa de Valores do Brasil – atual B3 (Brasil, Bolsa, Balcão) – lançou o contrato Futuro de Milho com Liquidação Financeira, sendo a região base a de Campinas – SP (atualmente envolvendo 162 municípios). A liquidação financeira ocorre pela média aritmética dos últimos três dias úteis do Indicador do Milho ESALQ/BM&FBovespa, cujos processos de coleta, análise, armazenamento de dados, cálculo e divulgação diária são realizados pelo Cepea, com auditorias e averiguações realizadas por parte da Bolsa.

A Bolsa também tem listado o contrato Futuro de Base de Preços de Milho para as regiões de Cascavel (PR), Rio Verde (GO) e Triângulo Mineiro. Entretanto, não há liquidez para estes contratos de base.

Em mercados futuros, em geral, observa-se aumento no interesse nas negociações em momentos de fortes oscilações de preços no físico. No Brasil, as cotações do milho chegaram a patamares recordes no primeiro semestre de 2021, o que também motivou as negociações de contratos futuros e de opções, que registram os maiores volumes históricos desde o lançamento.

Segundo dados da B3, no primeiro semestre de 2021, foram negociados 1,63 milhão de contratos de milho, dos quais 87,1% foram de contratos futuros e 12,9%, de opções. As negociações envolveram, portanto, quase 44 milhões de toneladas de milho, um recorde semestral – inclui contratos para até 2022. Entre julho/20 e junho/21, foram negociados 2,83 milhões de contratos (76,4 milhões de toneladas), sendo 86,1% de futuros.

Aumentos da oferta e produtividade do milho

A boa liquidez do contrato futuro do milho também tem relação com o dinamismo da cadeia produtiva como um todo, desde a produção. Nos últimos 15 anos, uma série de fatores novos favoreceu ganhos de produtividade e aumento da oferta do cereal, colocando o Brasil como um dos maiores exportadores mundiais. Entre estes fatores estão a liberação de uso comercial de variedades geneticamente modificadas, o consequente melhoramento genético, ajustes nos períodos de cultivo e usos mais eficientes de fertilizantes e defensivos.

Dados da CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) mostram que as primeiras liberações de eventos para o milho ocorreram em 2007. Até maio/21, 50 diferentes processos já haviam sido contabilizados, envolvendo eventos com características de resistência a insetos, tolerância a herbicidas ou mesmo tolerância a herbicidas e resistência a insetos, simultaneamente.

Enquanto na safra 2006/07 o Brasil produziu 51,4 milhões de toneladas de milho, em 2019/20, chegou a 102,6 milhões de toneladas. Na atual temporada 2020/21, por sua vez, a produção está estimada em 93,4 milhões de toneladas. Neste período (de 2006/07 a 2020/21), a oferta cresceu a 5,06% a.a., resultado de ganhos de 2,60% a.a. na produtividade média e de 2,39% a.a. em área destinada à cultura. De 2006/07 a 2020/21, o consumo doméstico passou de 42,8 milhões de toneladas para 72,1 milhões de toneladas, implicando, portanto, aumento de excedente.

Enquanto em 2006/07 a primeira safra representou 71,2% da oferta total, em 2020/21, estima-se que a segunda safra represente 3/4 da oferta nacional. No período, a produção da primeira safra decresceu a 3,08% a.a., pressionada pela redução de área, em 6,19% a.a., mas a produtividade aumentou, 3,31% a.a..

Já na segunda safra, a oferta cresceu a uma taxa expressiva de 12,61% a.a.. A sustentação vem especialmente do ajuste dos períodos e dos sistemas de produção, fazendo com que a cultura tivesse ganhos de área de 9,3% a.a. na segunda safra. Importante que a produtividade também cresceu, 3,03% a.a..

A produção de semente de milho e o mercado futuro

Neste ambiente, também podem ser citadas as empresas de produção de semente de milho no Brasil, que fazem parcerias/cooperações com produtores para reproduzirem e/ou multiplicarem suas tecnologias. Após o beneficiamento, essas sementes são, então, disponibilizadas para os produtores de forma geral para o cultivo comercial.

Diversas empresas atuam neste segmento. Segundo o registro nacional de cultivares, do Mapa, desde 1998, 105 diferentes empresas solicitaram registros de cultivares de milho, sendo que, desde 2018, há registros para 50 diferentes requerentes. Essas empresas têm parcerias com produtores especialmente nas regiões em que há atividades de irrigação, permitindo, inclusive, o cultivo em períodos fora do regime mais intenso de chuvas e redução do risco de perdas devido a pluviometrias não adequadas.

Em linhas gerais, no processo de produção, as empresas se responsabilizam especialmente pela disponibilidade da tecnologia, pelas eliminações de linha de macho e despendoamento e pela colheita e beneficiamento, mas também por alguns defensivos químicos. Os produtores se responsabilizam pelas demais atividades e adubações.

Mas a questão chave está nos pagamentos aos produtores. As empresas tendem a oferecer pagamentos que envolvem um volume de produção como se fosse o cultivo comercial, com intervalos de volumes mínimos e máximos. A depender da relação comercial entre produtor e empresa, há pagamentos adicionais, inclusive por serviços prestados.

Um ponto central vem da fixação do preço. Consultas realizadas por pesquisadores do Cepea junto a produtores de sementes de milho apontam que estes dispõem da oportunidade de fixar valores com referência a um contrato futuro da B3 durante o ciclo da cultura, aplicando um deságio de acordo com a formação de preços da região de referência. Entende-se que, quando o produtor toma a decisão de fixar o preço, a empresa que fará o pagamento em momento futuro tende a realizar operação de hedge na Bolsa.

Informações relatadas por produtores indicam que os deságios oferecidos por estas empresas são equivalentes entre as regiões paulistas e mineiras, elevando-se parcialmente quando envolvem praças de Goiás e do oeste da Bahia. Como era de se esperar, os maiores deságios são aplicados para regiões de Mato Grosso.

Informações sobre a produção de semente de milho visam a mostrar como o mercado efetivamente considera os preços da Bolsa no Brasil para a formação de preços em diferentes regiões do Brasil, melhorando a liquidez dos contratos futuros. Certamente, outros setores a montante da cadeia apresentam ações desta natureza. Por outro lado, a dispersão de empresas atuando neste segmento, também em diferentes regiões do Brasil, juntamente com o uso da biotecnologia, vem contribuindo para melhorar a produtividade do milho brasileiro, independentemente do período em que é cultivado.

 O artigo também pode ser acessado clicando aqui

 

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