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Adubação Verde: Projeto brasileiro é destaque de inovação internacional

Adubação verde

(Curadoria Agro Insight)

Olá Agronautas!

Na curadoria Agro Insight de hoje o tema é a adubação verde e os seus benefícios aos sistemas de cultivo.

São inúmeras as vantagens do seu uso, dentre elas, podemos destacar a redução da dependência de insumos externos, uma vez que a adubação verde, realizada com espécies leguminosas, tem o potencial de suprir de forma parcial ou total a necessidade de nitrogênio da cultura em sucessão. Além disso, algumas espécies possuem efeitos alelopáticos, inibindo o desenvolvimento de plantas daninhas. Sem falar em todos os efeitos positivos à qualidade química, física e biológica do solo.

Para abordar o tema, vamos reproduzir uma matéria publicada na Revista Globo Rural no dia 11 de outubro de 2021, que destaca o trabalho da Raiar Orgânicos, empresa que atua no setor de ovos orgânicos e do projeto Folio, iniciativa voltada ao estímulo à adubação verde, que foi selecionada para receber US$ 40 mil do programa de inovação social do Massachusetts Institute of Technology (MIT).

Na sequência da nossa curadoria vamos abordar os aspectos técnicos que envolvem a adubação verde

MATÉRIA: Projeto recebe US$ 40 mil do MIT para criar banco de adubação verde no Brasil

Há mais de um século, o químico alemão Fritz Haber recebeu o Prêmio Nobel em Química por um trabalho que permitiu o surgimento da agricultura em escala industrial. Com uso de altíssimas temperaturas e pressão, ele desenvolveu um método para obter o nitrogênio a partir do ar atmosférico, onde o nutriente está amplamente presente, mas em formato gasoso. O trabalho de Haber contribuiu para o desenvolvimento do modelo de produção que, anos mais tarde, ficou conhecido como Revolução Verde.

Hoje, contudo, esse modelo está em crise. Altamente poluente, a obtenção de nitrogenados a partir do processo desenvolvido por Haber tem passado por sérias dificuldades este ano devido ao forte aumento nos preços da energia e, consequentemente, do gás natural usado na síntese da amônia e outros nitrogenados. “Acho que a gente e está no ponto de virada, mas essa virada acho que ela é em função do esgotamento do modelo agronômico da revolução verde”, avalia Luis Barbieri.

Engenheiro industrial de formação, ele atua há vinte anos no mercado de grãos e há dois fundou a Raiar Orgânicos, empresa que atua no setor de ovos orgânicos. Foram as dificuldades para fazer deslanchar esse negócio que o motivaram a criar uma iniciativa com potencial de reduzir a dependência do produtor brasileiro de insumos químicos importados e alcançar uma produção mais sustentável, com menos emissões de gases do efeito estufa: a criação de um banco de sementes para adubação verde.

A técnica é antiga e ensinada em escolas de primeiro grau. Trata-se do uso de plantas fixadoras de nitrogênio, como o feijão, para repor nutrientes no solo. Outras espécies têm a capacidade ainda de inibir o crescimento de plantas daninhas e nematoides. São alternativas ao uso de herbicidas e fertilizantes químicos largamente aplicados na produção brasileira de grãos. Só em 2020 foram 32,8 milhões de toneladas de fertilizantes importadas pelo país, um recorde.

“Esse é um modelo que começou lá na década de 70 e que se esgotou. Hoje os produtores estão cada vez mais procurando formas e soluções e tecnologias que fazem parte do conjunto de modos de produção orgânica, que é substituição do insumo químico por minerais, insumos biológicos, visualização e valorização da biologia do solo. Coisas que, há vinte anos, se fosse apresentar no coração do Mato Grosso, achariam loucura”, conta o empresário.

Junto com outros empresários, Barbieri ajudou a criar a Folio, iniciativa que foi selecionada para receber US$ 40 mil do programa de inovação social do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e que serão usados para criar o primeiro banco de adubação verde do país. O projeto entrará em campo já nesta temporada, com cinco produtores. Eles receberão 100 quilos de sementes cada um, que serão semeadas em dez hectares no total. Ao final da temporada, para cada semente cedida, eles devolverão três, permitindo aumentar a escala para 40 produtores já na safra de inverno no ano que vem.

“A adubação química solubilizou o mineral. Pegou o potássio e o fósforo da rocha e fez um sonrisal de adubo. Agora a gente quer solubilizar o conhecimento e então pegar esse conhecimento sobre adubação verde que está aí e difundir para, com isso, gerar mais conhecimento”, explica Barbieri. A ideia é que os US$ 40 mil sejam apenas um pontapé inicial e que, com a inclusão de mais produtores, seja possível gerar dados sobre quais as espécies mais indicadas para cada cultura e região do país.

A iniciativa tem como missão justamente difundir o conhecimento sobre a produção orgânica de grãos no Brasil e, assim, permitir ganho de escala para o seu negócio principal: o comércio de ovos orgânicos. “Hoje a produção orgânica de grãos no Brasil é 0,02%. O ovo é 0,2%. Se a gente quiser ir pra 2%, precisa crescer 100 vezes e não tem 100 vezes mais esterco de galinha”, comenta Barbieri ao reconhecer um dos atuais gargalos do setor em que decidiu investir.

“A conta não fecha e essa é a principal crítica aos orgânicos. Hoje isso não vai resolver o mundo, mas a há um caminho a ser percorrido e acho que isso é o que a gente se propõe aqui, como construir as pontes necessárias para o orgânico ser relevante e ocupar um espaço maior no mercado brasileiro. E um dele é a disponibilidade de nitrogênio”, destaca Barbieri.

ADUBAÇÃO VERDE

A adubação verde é uma prática muito antiga, sendo que gregos, romanos e chineses já utilizavam essa prática antes da era Cristã. No Brasil, os primeiros relatos começaram a surgir a partir da década de 20. Com o surgimento da Revolução Verde e o consequente incentivo ao uso massivo de fertilizantes e defensivos, as plantas de cobertura acabaram sendo, de certa forma, esquecidas.

Atualmente, com o advento do plantio direto, novamente tornou-se importante o seu uso como condicionadoras da qualidade do solo e com grande importância em sistema de rotação de culturas.

Exemplos de culturas leguminosas utilizadas na adubação verde: feijão-deporco (Canavalia ensiformis L.), crotalária (Crotalarea juncea L.) e caupi (Vigna unguiculata (L.) Walp.).

Exemplos de culturas não leguminosas utilizadas na adubação verde: azevém (Lolium multiflorum Lam.), aveia (Avena sativa L.), cevada (Hordeum vulgare L.) e capim-sudão (Shorghum sudanense L.).

FIXAÇÃO BIOLÓGICA DE NITROGÊNIO

Um dos principais usos da adubação verde é a Fixação Biológica do Nitrogênio (FBN) que além de aumentar a produtividade agropecuária pelo fornecimento do nitrogênio (nutriente utilizado em maior quantidade pela maioria das plantas), minimiza a emissão dos Gases de Efeito Estufa (GEE), contribuindo para atenuar os efeitos das mudanças climáticas.

A Fixação Biológica do Nitrogênio é uma alternativa sustentável para a substituição do uso de nitrogênio, considerando os custos e as condicionantes ambientais. Em um processo natural de interação planta-bactéria, a técnica incorpora o nitrogênio disponível no ar ao mecanismo de nutrição das plantas.

A FBN é um processo biológico mediado por bactérias que possuem um complexo enzimático denominado nitrogenase. Nele, ocorre a transformação do nitrogênio do ar (N2) em formas assimiláveis pelas plantas.

Benefícios da FBN

  • Economia em nitrogênio mineral;
  • Redução no custo de produção;
  • Redução na emissão de Gases de Efeito Estufa que contribuem para o aquecimento global.

Como a adubação nitrogenada é um dos fatores que mais oneram o custo de produção e mais contribuem para a emissão de GEE na agricultura, a FBN mostra-se como uma tecnologia economicamente viável e capaz de mitigar os possíveis danos ao meio ambiente.

OUTROS BENEFÍCIOS DA ADUBAÇÃO VERDE

Proteção do solo

A cobertura vegetal proporcionada pelas plantas de cobertura sobre o solo atenua o impacto das gotas de chuva, evitando a desagregação do solo, bem como o selamento superficial. Com isso, aumenta-se a proteção aos processos erosivos.

Aumento da taxa de infiltração de água no solo

O sistema radicular, após se decompor, deixa canais formados no interior do solo. Além disso, a cobertura vegetal diminui a desagregação do solo e a velocidade da enxurrada. Esses fatores, combinados, proporcionam uma maior infiltração de água no solo, o que é importante para seu armazenamento e prevenção da erosão.

Aumento no teor de matéria orgânica do solo

O grande e contínuo aporte de fitomassa, pelas plantas de cobertura, ao longo dos anos, proporciona um aumento no teor de matéria orgânica do solo, o que é desejável para a melhoria das propriedades químicas, físicas e biológicas do solo.

Menores oscilações de temperatura e evaporação

A camada de palha, proporcionada pelos resíduos culturais das plantas de cobertura, atua como um isolante térmico, fazendo com que o solo não apresente temperaturas muito altas ou muito baixas, que podem ser prejudiciais ao bom desenvolvimento das plantas. Com isso, a evaporação de água do solo é diminuída e a disponibilidade de água às plantas, aumentada.

Recuperação de solos degradados

O grande crescimento do sistema radicular das plantas de cobertura poderá romper camadas adensadas ou compactadas, melhorando a estruturação e aumentando a aeração e infiltração de água no solo. O aumento no teor de matéria orgânica, proporcionado pelos resíduos culturais, aumenta a agregação do solo, o que é importante em solos extremamente desagregados.

Ciclagem de nutrientes

As plantas de cobertura, através do crescimento do sistema radicular, muitas vezes, atingindo camadas mais profundas no solo que as culturas comerciais, retiram nutrientes contidos nestas e imobilizam em seus tecidos. Após o seu manejo, seja por rolagem, dessecação, ou outro, a decomposição dos resíduos culturais e mineralização dos nutrientes fazem com que estes estejam novamente disponíveis às culturas comerciais em locais onde elas têm a capacidade de extraí-los. Além disso, quando plantas de cobertura são cultivadas, ao invés de deixar as áreas em pousio, evitam a perda de nutrientes por lixiviação, imobilizando-os, também, em seus órgãos vegetativos. Com isso, após o manejo, as áreas estarão novamente disponíveis aos cultivos comerciais.

Aporte de nitrogênio através da fixação biológica

Quando são utilizadas leguminosas como plantas de cobertura do solo, estas possuem a capacidade de fixar o nitrogênio atmosférico (N2), através da simbiose com bactérias fixadoras de nitrogênio. Com isso, o nitrogênio fica imobilizado nos órgãos vegetativos da planta e, após o manejo, é disponibilizado às culturas comerciais. Dessa forma, poderá ser reduzida a adubação nitrogenada mineral, o que reduz os custos de produção, bem como a contaminação ambiental.

Redução da população de plantas invasoras

As plantas de cobertura podem reduzir a infestação de plantas invasoras através da alelopatia e supressão. A alelopatia ocorre quando compostos químicos são liberados pelas plantas vivas, ou mortas, os quais afetam o desenvolvimento ou germinação das plantas daninhas. Já a supressão é o impedimento físico proporcionado pela palhada das plantas de cobertura que fica sobre o solo, onde a passagem de luz é prejudicada, impedindo ou prejudicando a sua germinação.

Potencial de utilização múltipla na propriedade

Algumas plantas de cobertura podem ser utilizadas de forma integrada na proteção do solo, alimentação animal e alimentação humana.

BIBLIOGRAFIA E LINKS RELACIONADOS

Programa ABC – Fixação Biológica do Nitrogênio – Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Luciano Zucuni. Conservação do solo / Luciano Zucuni Pes, Diego Antonio Giacomini. – Santa Maria: Universidade Federal de Santa Maria, Colégio Politécnico; Rede e-Tec Brasil, 2017. 69 p.

Revista Globo Rural – AGTECH – Projeto recebe US$ 40 mil do MIT para criar banco de adubação verde no Brasil.

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