Diversidade dos nematoides: de parasita de baleias a parasita de plantas

Nematoides (nema=fio) são vermes microscópicos, de origem aquática que sobrevivem nos mais diversos habitats. A diversidade do grupo é bem ampla, existem muitos detalhes interessantes sobre esse grupo.

Os nematoides são conhecidos por causar danos às culturas de importância agrícola, porém as funções dos nematoides no ambiente são diversas, principalmente dos nematoides que não são parasitas de plantas, que são a maioria dos nematoides presentes na natureza.

Os nematoides podem ser encontrados em água doce, salgada, todos os tipos de solo e também podem ser parasitas de plantas e animais. Atualmente aproximadamente 30 mil espécies de nematoides já foram descritas (Figura 1), desse total apenas 10% são parasitas de plantas, em torno de 15% são parasitas de animais, nematoides de vida livre (que se alimentam de outros organismos, por exemplo, fungos, bactérias, outros nematoides) de solo e água doce são 25% e a maior porcentagem se trata de nematoides de vida livre marinhos, em torno de 50% do total. O objetivo desse artigo é mostrar toda essa diversidade encontrada no Filo Nematoda ou Nemata.

Figura 1. Distribuição dos nematoides.

Adaptado de H. Ferris, Nemaplex, University of Califórnia.

1. DIVISÃO DO FILO NEMATODA OU NEMATA

No Filo Nematoda ou Nemata (os dois nomes são encontrados na literatura) estão inseridos os nematoides parasitas de plantas, que são os mais comentados e estudados. Além desse grupo, são incorporados ao Filo os nematoides parasitas de animais vertebrados e invertebrados, como por exemplo, Ascaris lumbricoides, a lombriga intestinal humana ou Dioctophyme renale, lombriga parasita de cães e também a Placentonema gigantissimum, parasita de baleia. Além dos nematoides de vida livre de solo, água doce e água salgada.

Mas sempre que falamos em nematoides, lembramos dos nossos “inimigos invisíveis”, os parasitas de plantas, que tanto trazem prejuízos para a agricultura mundial.

Os nematoides ocorrem naturalmente no solo e existem espécies adaptadas as mais diversas condições edafoclimáticas, estima-se que somente 1% dos nematoides existentes na natureza já foram descritos até o momento, isso indica que teremos essa temática em constante evolução, ainda mais se tratando do terceiro maior grupo em abundância na natureza, perdendo apenas para bactérias e protozoários.

No livro “Life in the Soil” existe um estudo que classifica os nematoides como o terceiro maior grupo entre os microrganismos e animais, em 1m² de solo analisado podemos encontrar até 5 milhões de nematoides (Figura 2).

Figura 2. Abundância de microrganismos e animais em 1m² de solo.

Livro: Life in the Soil. James B. Nardi.

2. FUNÇÕES DOS NEMATOIDES NO SOLO

Os nematoides presentes no solo desempenham muitas funções, as principais estão relacionadas à regulação de taxas ou velocidade de transformações como a decomposição da matéria orgânica.

Os nematoides são considerados bioindicadores de qualidade ambiental e nos últimos anos estudos sobre a comunidade de nematoides (conjunto de todos os nematoides presente no solo – Tabela 1) tem mostrado o grande potencial desse grupo em indicar a condição ambiental dos solos em agroecossistemas ou não.

No solo, os nematoides desempenham vários papéis, pode-se destacar a decomposição da matéria orgânica, mineralização de nutrientes, degradação e regulação da população de microrganismos.

 Tabela 1. Composição da comunidade de nematoides no solo x hábito de alimentação

Nematoide

Alimenta-se de? Exemplo

Bacteriófago

Bactérias Acrobeles sp.

Fungívoro

Hifas de fungos

Aphelenchoides sp.

Parasita de plantas

Plantas (principalmente raízes)

Meloidogyne sp.

Predador

Nematoides e outros microrganismos

Mononchus sp.

Onívoro Tem mais de um hábito de alimentação (fungos e plantas)

Aphelenchoides besseyi

3. DIVERSIDADE DOS NEMATOIDES PARASITAS DE PLANTAS

Os nematoides parasitas de plantas são um grande desafio para o produtor e também para os especialistas, devido à diversidade de espécies e também a adaptação das espécies as mais diversas condições edafoclimáticas. É possível encontrar nematoides em qualquer tipo de solo que tenha condições para sobrevivência, principalmente temperatura e umidade.

Sempre vão ocorrer uma ou mais espécies de nematoides que possam parasitar determinada cultura. Para que o parasitismo aconteça de fato, basta que o nematoide tenha condições de sobreviver na área e a planta hospedeira esteja próxima a ele.

A descoberta de novas espécies também tem se intensificado nos últimos anos, devido a advento das tecnologias que facilitam a identificação, como técnicas de eletroforese e identificação por DNA.

Além do aparecimento de populações atípicas dentro de uma mesma espécie, o aumento de potencial de dano de espécies que não eram importantes também tem acontecido, exemplos são: o nematoide espiralado (Helicotylenchus dihystera) e falso espiral (Scutellonema brachyurus) que despontam como potenciais patógenos da cultura da soja. O mesmo aconteceu anos atrás com o nematoide das lesões radiculares (Pratylenchus brachyurus), que passou de secundário a um dos principais nematoides de importância econômica no Brasil.

Os sistemas de cultivo baseados na sucessão de culturas suscetíveis favorecem o aumento das densidades populacionais dessas espécies, que já são velhas conhecidas, mas também ajudam na adaptação das espécies secundárias, e consequente aumento de densidade e potencial de dano, que é o que vem ocorrendo com as duas espécies citadas como potencias patógenos da cultura da soja.

O que explica essas mudanças? Uma das hipóteses é a grande variabilidade genética dos nematoides e também a adaptação às condições do ambiente. O nematoide não era hospedeiro preferencial de determinada cultura, mas como a cultura fica presente durante muito tempo na área, o nematoide se adapta e passa a se alimentar dela, ocorrendo um aumento da densidade populacional, que se reflete no aumento proporcional dos danos causados à cultura.

4. CONSIDERAÇÕES

Conhecendo toda a problemática causada pelos fitonematoides, é importante conhecermos toda a diversidade do Filo em que ele está inserido. Sabendo que ainda temos o que descobrir pela frente, a natureza está em constante evolução e com os nematoides não é diferente.

BIBLIOGRAFIA E LINKS RELACIONADOS

– BONGERS, T.; FERRIS, H. Nematode community structure as a bioindicator in environmental monitoring. Trends in Ecology and Evolution, London, v.4, p.224-228, 1999. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0169534798015833

– BROWN, D.J.F.; FERRAZ, L.C.C.B. Nematologia das plantas: fundamentos e importância. Manaus: Norma Editora, 2016. 251 p. Disponível em: http://www.nematologia.com.br/files/livros/1.pdf

– MACHADO, A.C.Z.  AMARO, P.M.; SILVA, S.A. Two novel potential pathogens for soybean. PLoS ONE, v.14, n.8. 2019.  Disponível em: https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0221416

– NARDI, J.B. Life in the soil: a guide for naturalists and guardeners. Editora: University of Chicago Press. 293p. Disponível para compra em: https://www.amazon.com.br/Life-Soil-Guide-Naturalists-Gardeners/dp/0226568520

SITE NEMAPLEX, University of Califórnia. Disponível em: http://nemaplex.ucdavis.edu/

 

 

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